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Transforma MP, ABJD e APD repudiam a violência que levou João Alberto à morte

 

O Coletivo por um Ministério Público Transformador – Transforma MP, a Associação de Advogadas e Advogados Públicos para a Democracia – APD e Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD, vêm a público manifestar REPÚDIO e INDIGNAÇÃO aos atos de violência praticados contra João Alberto Silveira Freitas, homem negro, 40 anos, espancado até a morte por seguranças do supermercado Carrefour em Porto Alegre na noite de 19 de novembro de 2020, véspera do Dia Nacional da Consciência Negra.

A reincidência da rede de supermercados Carrefour em envolvimento de práticas racistas e de violências sugere ausência de compromisso com a construção de uma sociedade mais solidária e justa.

O racismo presente na sociedade brasileira é estrutural. É uma história de opressão, segregação que perdura por séculos, desde a escravidão. Nada obstante, é inadmissível que a naturalização de fatos e situações reveladores de discriminação racial sejam tolerados por empresas ou em qualquer espaço. Todos somos responsáveis por resistir e enfrentar o racismo.

Importante apontar, também, que a utilização de empresas de segurança privada em substituição ao dever do Estado de garantir segurança a todos, deve ser censurada. A privatização da segurança atua não só reproduzindo o racismo estrutural da sociedade, criminalizando a pobreza e raça, mas desconsiderando que a vida, sem distinção de classe, gênero e cor, é o bem maior a ser protegido numa sociedade plural e democrática.

Não podemos permitir, sob nenhuma condição que cidadãos em razão de sua cor, gênero ou classe tenham seus direitos vilipendiados e/ou a vida eliminada. Todos somos dignos de proteção do Estado, razão pela qual, também REPUDIAMOS as ações do governo Bolsonaro ao interromper políticas públicas de combate ao racismo e por seu discurso negacionista em relação ao racismo.
Nesse 20 de novembro, os coletivos e entidades que assinam esta nota reafirmam seu compromisso no combate ao racismo e a luta por igualdade e justiça. Com racismo não há democracia.

Dia da Consciência Negra

 

No dia 20 de novembro de 1695, Zumbi dos Palmares, foi capturado, torturado e assassinado por desafiar a Coroa Portuguesa que comercializava e escravizava os negros no Brasil. A morte de um dos maiores líderes antiescravagistas do país nos faz refletir sobre a condição das negras e negros na atualidade.

Passaram-se mais de 130 anos desde a abolição oficial da escravidão, mas a luta permanece. O povo negro ainda sofre com o racismo estrutural que produz desigualdades sociais, encarceramento em massa, violência e mortes.

Em 2011 foi sancionada a Lei nº 12.519 que institui o dia 20 de Novembro como o dia da Consciência Negra para relembrar e combater o racismo enraizado na sociedade brasileira. 

O Coletivo Transforma MP firma seu compromisso com o combate ao racismo e com a luta por igualdade e justiça.

“Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”. 

Angela Davis

#vidasnegrasimportam

Nota de repúdio aos atos de violência contra João Alberto Silveira Freitas

O Coletivo por um Ministério Público Transformador (Transforma MP), manifesta profunda indignação e repúdio aos atos de violência praticados contra João Alberto Silveira Freitas, homem negro, 40 anos, espancado até a morte por seguranças do supermercado Carrefour em Porto Alegre na noite de ontem, véspera do Dia Nacional da Consciência Negra. Tenhamos consciência que a maior parte dos abusos acontecem fora dos olhos da sociedade.

Neste 20 de novembro, o Coletivo afirma seu compromisso no combate ao racismo e luta por igualdade e justiça. Com racismo não há democracia.

#vidasnegrasimportam

Coletivos Transforma MP e ABJD enviam requerimento ao TSE

O Coletivo Transforma MP e a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD, solicitam ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o encaminhamento ao Ministério Público Eleitoral das notícias de possíveis ilícitos eleitorais relativos aos disparos em massa.

Com o objetivo de receber denúncias sobre supostos disparos em massa realizados pelo WhatsApp, na forma vedada pela Resolução nº 23.610, de 18 de dezembro de 2019, o TSE disponibilizou canal específico em seu sítio eletrônico (https://denuncia-whatsapp.tse.jus.br/dew/rest/denuncia/), por meio do qual o cidadão informa o número do telefone – com código do país, Estado e Município – de onde originou a mensagem suspeita.

Infere-se que o TSE responsabiliza-se tão apenas pelo repasse das informações à empresa, para que esta proceda à investigação interna sobre possível violação dos seus termos de uso e políticas, para posterior banimento das contas, em caso de descumprimento das regras pelos usuários.
Vislumbra-se, no entanto, que não consta qualquer informação acerca das medidas tomadas pelo TSE a fim de apurar possíveis ilícitos eleitorais praticados pelos responsáveis pelos números telefônicos.

Nesse sentido, as entidades acima qualificadas, no melhor espírito de colaboração e respeito, solicitam esclarecimentos sobre as providências adotadas pelo TSE com tal finalidade, em especial, se referidas notícias foram repassadas para o Ministério Público Eleitoral, para a devida apuração de eventual ocorrência de ilícitos eleitorais.

Leia o documento completo aqui:  REQUERIMENTO TSE assinado – ABJD

Entidades e coletivos convocam população e imprensa para lançamento de carta para o FSMJD

Coletivos e entidades promoverão  o Fórum Social Mundial Justiça e Democracia, a ocorrer no ano de 2021, e convidam a imprensa e a sociedade para comparecerem no lançamento da carta convocatória.

Os coletivos e entidades da sociedade civil Transforma MP, ABJD, AJD, APD, Defensores pela Democracia, Movimento dos Policiais Antifascismo, juntamente com dezenas de outras importantes entidades e movimentos apoiadores, convidam a imprensa brasileira e internacional para comparecerem ao lançamento da carta convocatória para o Fórum Social Mundial Justiça e Democracia.

A apresentação do Fórum ocorrerá no próximo domingo, 22 de novembro de 2020, às 11h nos canais do Youtube dos idealizadores e de parceiros que irão transmitir a programação.

O evento contará com a presença do Professor português Boaventura  de Sousa Santos;  Carolina Tohá, cientista política, advogada e acadêmica no Chile; Vitalina Papadakis, desembargadora no Tribunal Superior de Recurso de Maputo – Moçambique; e Hamouda Sobhi, do Alternatives Marrocos e do conselho internacional do FSM.

O Fórum Social Mundial Justiça e Democracia  acontecerá entre os dias 21 a 26  de setembro de 2021 no Brasil. O município que receberá a conferência será definido em breve, assim como outros detalhes. 

Saiba mais sobre o Fórum Social Mundial Justiça e Democracia aqui

 

O mundo do trabalho: ficção e realidade

Olhar para o mundo do trabalho a partir das expressões artísticas é uma forma de pensarmos esse contexto por outras perspectivas: os olhares dos artistas.

Tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras. Coubera a ele ser o instrumento por meio do qual a palavra haveria de se espalhar pelo coração dos homens. Seu exemplo levara-os ao pó, que ele via subir cada vez que a pá trabalhava, e ajudara-os a chegar à resposta do enigma em tempo de fome e miséria: o sopro de vida dos homens se dirige para debaixo da terra, como o dos animais.

Tempo de espalhar pedras, Estevão Azevedo

Encontramos o mundo do trabalho retratado das mais diversas formas, nas mais diversas expressões artísticas: literatura, cinema, artes plásticas, música – apenas para citar algumas.

Em 2014, por exemplo, foi publicado um livro muito potente, muito singular, que aborda o mundo da estrada e da beira da estrada, cenário inserido na geografia do interior do estado de São Paulo, retratando vidas de caminhoneiros, seus sentimentos, suas carências.

Sem vista para o mar (Edith), de Carol Rodrigues, vencedor dos prêmios Jabuti e Clarice Lispector (da Fundação Biblioteca Nacional), arrebata-nos desde a primeira página com o conto Onde acaba o mapa – e vai nos guiando pela estrada literária construída, ao longo do livro, pela autora. O conto Um homem prudente transporta-nos para o mundo do caminhoneiro Murilo: “Não toma rebite. Dá mais acidente que insônia”.

Outro exemplo da literatura brasileira contemporânea é o romance Tempo de espalhar pedras (Record), de Estevão Azevedo, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, elaborado sobre cotidianos de moradores e trabalhadores de um garimpo ficcional. Estevão narra de forma poética, mas também direta e crua, as relações humanas – que se misturam, muitas vezes, com as relações de trabalho.

No cinema, dentre os streamings da 44ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, chamaram-me a atenção, como operadora do direito do trabalho, o documentário Coronation, de Ai Weiwei, e os filmes Espacate, do diretor Christian Johannes Koch, e Miss Marx, escrito e dirigido por Susanna Nicchisrelli.

Coronation traz os acontecimentos da cidade de Wuhan, na China, durante a pandemia de COVID-19: como alguns de seus habitantes foram impactados pelo surto; narrativas particulares entrelaçadas com as difíceis condições de trabalho, principalmente de profissionais da área da saúde.

O longa-metragem Espacate, ao apresentar, dentro de sua trama, um contexto de imigração ilegal (no caso, em uma cidade do interior da Suíça) e do meio ambiente de trabalho relacionado a imigrantes, escancara o desamparo a que pessoas em tais condições podem estar sujeitas quando sofrem um acidente de trabalho.

Miss Marx, por sua vez, mostra o ativismo sindical de Eleanor Marx, interpretada por Romola Garai. Em sua peregrinação por fábricas, a filha de Karl Marx aparece reivindicando condições dignas para os trabalhadores – Eleanor menciona, em especial, a importância de um espaço ventilado nos locais de trabalho.

A temática também atravessa diversas fases da música popular brasileira, chegando na atualidade: raps tornam-se espaço para possíveis debates sobre o impacto da tecnologia e da crise econômica e de empregos.

O rapper Projota, em Rap do ônibus, fala da rotina dos trabalhadores em São Paulo: “Sardinhas enlatadas são jogadas ao relento / […] Porque dá mais trabalho chegar no trabalho do que trabalhar”; e Rachid, em Como estamos?, do desemprego: “Olha pra fora e diga como estamos […] / Algumas perdas tiram até o brilho do que conquistamos / […] Com as porta de emprego tudo fechada e as da cadeia tudo aberta. É onde o mal flerta”.

No campo dos direitos sociais, há um longo caminho que deveremos percorrer, ainda, no enfrentamento dos obstáculos para conseguirmos implementar o trabalho decente no Brasil, objetivando vidas dignas para todos.

Formalizado pela OIT em 1999, o conceito de trabalho decente sintetiza a sua missão histórica de promover oportunidades para que homens e mulheres obtenham um trabalho produtivo e de qualidade, em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade humanas, sendo considerado condição fundamental para a superação da pobreza, a redução das desigualdades sociais, a garantia da governabilidade democrática e o desenvolvimento sustentável.

Olhar para o mundo do trabalho a partir das expressões artísticas é uma forma de pensarmos esse contexto por outras perspectivas: os olhares dos artistas.

 

Pedra. Carrego pedra. / Toma rebite? / É o jeito a essa hora. / Voltamos pelo tranco das pedras e do pagode chiado na fitinha cassete. A cabeça encostada no banco recuava da garganta o que viesse lá de baixo. / Em quatro horas encostava em Auriflama. O degrau foi bem fácil de descer. / Desse ponto minha vida seguiu só por terra leste do país. Final feliz é só mesmo o litoral. Mas minha pele, por enquanto, ainda não responde muito bem ao sol.

Sem vista para o mar, Carol Rodrigues

*Eliane Lucina, Procuradora do Trabalho, na PRT 2a.  Região – São Paulo, membra do Coletivo Transforma MP

Live: Liberdade, luta e resistência negra

 

Acompanhe a live “Liberdade, luta e resistência negra” com o presidente e fundador do bloco afro Ilê Aiyê, Vovô do Ilê. O debate será mediado pela Procuradora do Tra-balho e membra do Coletivo Transforma MP, Elisiane Santos.

A live acontecerá no dia 18/11 às 18h no perfil @transforma_mp no Instagram.

Vovô, como é internacionalmente conhecido, é fundador, idealizador e criador da Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê, juntamente com Apolônio de Jesus, já falecido. Vovô fez os estudos primário e ginasial na Escola Parque, depois fez os cursos de Patologia Clínica e o de Engenharia Eletromecânica. Antes de se dedicar, exclusivamente, ao trabalho de presidir e administrar o Ilê Aiyê e sua Banda, foi comerciário e operador da CEMAN e da COBAFE, no Pólo Petroquímico da Bahia, de 1976 a 1981.

Inúmeras são as contribuições de Vovô para o resgate e a afirmação da cultura de origem africana no Brasil. Produziu os quatro discos do Ilê Aiyê. Foi Coordenador do Carnaval da Liberdade de 1989 a 1992. Coordenou o Carnaval de Salvador, em 1996. É produtor de artistas nacionais e estrangeiros nos eventos do Ilê Aiyê. Foi membro da Comissão Organizadora da vinda de Nelson Mandela ao Brasil. Foi membro da Comitiva Oficial de Intercâmbio Cultural Bahia-Benin. Consultor para a criação de blocos afros no Rio de Janeiro, Maranhão e São Paulo. É responsável
pelo Projeto de Extensão Pedagógica e pela Escola Profissionalizante do Ilê Aiyê.
Foi membro do Grupo de Trabalho Interministerial para Valorização da População Negra, em Brasília e membro da Coordenação do Fórum Intermunicipal de Cultura, entre outras contribuições.

Com um trabalho voltado, exclusivamente, para a conscientização da população negra de seus direitos civis e fazendo isso através de manifestações político-culturais como o Bloco Afro Ilê Aiyê, a Band’Aiyê, a Escola Mãe Hilda, o Projeto de Extensão Pedagógica, a Banda Erê, a Escola Profissionalizante e outras, Vovô tem acumulado prêmios e reconhecimentos no Brasil e no Exterior.
São de Vovô essas frases:

“O Ilê Aiyê é, hoje, o único bloco realmente afro da Bahia. Nós temos orgulho de
ser negro. Apenas com este orgulho poderemos modificar esta “pior” que nos
deixaram.”

“O Ilê continua com a sua filosofia: é um bloco da Liberdade / Curuzu, uma
comunidade cuja maioria é negra. Toda vez que você consegue se manter nessa
selva que é a Bahia, é tachado de racista.”

“Na Liberdade, o pessoal diz: “Nada da Liberdade vai pra frente, tudo o que sobe,
desce”. Com isso, ele quer dizer que tudo de negro não vai pra frente. E quando
você consegue segurar por 41 anos uma entidade como o Ilê – de negro, para o
negro – provando que essa afirmação é mentirosa, é racista, ai você incomoda.”
Vai dar certo… É só dar mais um pouco na educação!

Eu quero ela! Se o poder é bom, eu também quero o poder!

Projeto Tecendo a Diversidade aprova candidatas negras para o concurso do MPT

O concurso para procuradores do Ministério Público do Trabalho (MPT), selecionou os candidatos para a prova oral e entre eles duas mulheres negras foram aprovadas, ambas fazem parte do projeto Tecendo a Diversidade.

A próxima etapa da disputa será a fase oral e posteriormente a comissão de heteroidentificação. Após aprovação e homologação do concurso as candidatas poderão tomar posse.

Projeto Tecendo a Diversidade

O projeto Tecendo a Diversidade foi uma iniciativa das Procuradoras do Trabalho, cujo objetivo é preparar mulheres negras e de baixa renda para o concurso do MPT que está em andamento.

O programa teve início em julho de 2019 e a prova objetiva ocorreu no dia 08 de março deste ano. Foram 300 mulheres pretas inscritas de todo o Brasil, mas apenas 100 foram selecionadas por obedecerem aos critérios como prática jurídica e baixa renda.

Saiba mais sobre o projeto:

Projeto Tecendo a Diversidade

Coletivos solicitam debates eleitorais na televisão

Os coletivos Transforma MP, a ABJD, a APD e o Intervozes entram em contato com emissoras de TV para solicitar debates entre candidatos municipais

Motivadas pela defesa da democracia substantiva no processo eleitoral de 2020, as entidades Coletivo Por Um Ministério Público Transformador – Transforma MP, a Associação Brasileira de Juristas Pela Democracia – ABJD, Advogadas e Advogados Públicos Para a Democracia – APD e o Coletivo Brasil de Comunicação Social – Intervozes, vêm através deste encaminhar um requerimento para a realização de debates eleitorais na televisão, no primeiro e segundo turnos das eleições 2020.

Acreditamos que a decisão de não realizar debates é equivocada e traz um prejuízo imensurável à concretização da democracia brasileira. Buscando assegurar que a sociedade tenha acesso à informação de qualidade, solicitamos que as concessionárias de televisão revejam seu posicionamento e realizem os debates eleitorais no primeiro e segundo turnos das eleições de 2020, de acordo com os protocolos de saúde.

Cordialmente,
Transforma MP, ABJD, APD e Intervozes.

Leia a solicitação completa aqui  Debates eleitorais TV assinado Transforma final

VOCÊ É LOUCA. SUA LOUCA. LOUCA!!

(Por todas as loucas dessa pátria desalmada, Brasil.)

Por Cristiane Correa de Souza Hillal* no GGN

  1. Nasce.

Ao longo da história, a tentativa de entender e lidar com a loucura passou por mudanças permeadas de tensões e embates de interesses que custaram vidas.

  1. Tenta aprender a ler.

Há muitas dores por trás da história da luta antimanicomial no Brasil. Mais do que o fechamento de hospitais e leitos psiquiátricos, a luta antimanicomial propõe uma mudança de paradigmas políticos, sociais, culturais, jurídicos e clínicos na forma de enxergar e lidar com a loucura.

  1. Expulsa da escola. Bate em uma amiga.

Para que se lute, eticamente, pela reinserção da pessoa com transtorno mental na família e na comunidade, resgatando sua cidadania e autonomia, é preciso vencer o que teóricos chamam de “desejos de manicômio” consistentes na vontade de dominar, subjugar, classificar, hierarquizar, oprimir e controlar aquele que, em sua subjetividade, revela-se diferente e rebelde à adequação convencional em nossa ordem econômico-social.

  1. Casa-se.

Como já nos ensinou Michel Foucault, o aprisionamento da experiência da loucura e a eliminação da heterogeneidade estão no imaginário de uma sociedade autoritária que vive a ilusão de um mundo uniformizado por homens disciplinados e produtivos, como síntese de virtude.

  1. Apanha do marido alcoólatra.

A lógica da filosofia manicomial/hospitalocêntrica ganhou força com o discurso iluminista do século XVIII e repousa na concepção de um sujeito fundado nos parâmetros da razão universal, sempre capaz de controlar seus atos, sua vida e o mundo que o cerca. É alguém disciplinado que atende às regras, normas e pactos sociais e está apenas comprometido com a manutenção da ordem social.

  1. Apanha mais. E mais… e mais …

A loucura passa a ser vista como falha da razão, um furo no projeto humano.  A cura significava resolver o equívoco que a loucura representa. Sem espaço no universo simbólico, o lugar social reservado para a loucura não poderia ser outro a não ser o da exclusão, do encarceramento e da morte subjetiva. (1)

  1. Três filhas. Primeira internação psiquiátrica.

Em um país como o nosso, estruturado na naturalização da violência e exclusão do negro, esse caldo cultural ganha potência. Não se estranha o desabafo do psiquiatra italiano Franco Basaglia (2), pioneiro na luta antimanicomial na Itália, que, ao vir ao Brasil e visitar o Manicômio de Barbacena em 1979, o chamou de “holocausto brasileiro”. Ele disse: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como essa”.

Sessenta mil mortos foram estimados no Hospital Colônia de Barbacena em Minas Gerais. Despidos de suas roupas, cabelos e identidades, desembarcavam, nos famosos “trens de doidos”, pessoas de todos os cantos do país.

Dentre elas, estima-se que 70% sequer tinham, de fato, transtornos mentais. A maioria estava ali porque eram “pessoas não agradáveis e incômodas”. Opositores políticos, prostitutas, homossexuais, mendigos, pessoas sem documentos, epiléticos, alcoolistas, meninas grávidas e violentadas por seus patrões, esposas adúlteras, amantes indiscretas, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, entre outros grupos marginalizados na sociedade.

“Os pacientes do Colônia morriam de frio, de fome, de doença. Morriam também de choque. Em alguns dias os eletrochoques eram tantos e tão fortes que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia e ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, mais de 1.800 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos passaram a ser decompostos em ácido, no pátio da Colônia, na frente dos pacientes ainda vivos, para que as ossadas pudessem ser comercializadas”. (3)

  1. Segunda internação psiquiátrica. Epilepsia. Alucinação.

É nesse contexto genocida que se fortaleceu, no Brasil, o contraponto da reforma psiquiátrica e sanitária na década de 70, momento em que variados movimentos sociais, partidos e sindicatos também se organizavam para resistir à ditadura cívico-militar. É, pois, na carona da mobilização por um país democrático e humanista que o Movimento de Trabalhadores da Saúde Mental se organizou para criticar o aprisionamento da loucura.

O transtorno mental passou a ser visto menos como um problema médico e mais como um fenômeno social.

  1. Ganha jaleco branco e pasta azul. Vira a dona do hospital psiquiátrico Cândido Ferreira.

De 1987 a 1993 consolidou-se o MNLA – Movimento Nacional de Luta Antimanicomial, que contribuiu a construção dos paradigmas do SUS na Constituição Federal. O Hospital Cândido Ferreira, em Campinas/SP, é pioneiro na adesão ao movimento e inicia processo de inclusão social dos internados criando a primeira residência terapêutica, em 1991.

  1. Bastante autônoma. Faz saídas externas. Volta à escola.

É promulgada a Lei 10216, de 06 de abril de 2001, que redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Estava sacramentada, como política pública, a reforma psiquiátrica.

  1. Frequenta lojas e escolhe as próprias roupas. Na residência terapêutica, quer quarto só para ela.

Consolida-se a esperança de que a violência dos manicômios, a mercantilização da loucura, a hegemonia de assistência da rede privada, o “saber” psiquiátrico como hierarquicamente superior, o modelo hospitalocêntrico de tratamento, a visão de que o transtorno mental se reduz à lógica “doença e cura” estavam com os dias contados.

  1. Pede festa de aniversário. Dá e recebe carinho.

No rol dos direitos das pessoas com transtorno mental, no artigo 2º. e seus incisos, destacam-se, expressamente, os direitos de um “ambiente terapêutico menos invasivo possível”. O artigo 3º destaca que a Política Pública, de responsabilidade do Estado, será construída com a participação da sociedade e da família. No artigo 4º, consta de forma categórica que a internação só será indicada quando os recursos extra hospitalares se mostrarem insuficientes.

  1. Aprende a usar chave e cadeado. Cuida dos próprios pertences. Adora bolinho de chuva.

Sem qualquer fundamento científico, começa a fortalecer o discurso no seio social de que a luta antimanicomial foi ineficaz. Aumentam as Comunidades Terapêuticas, entidades privadas, de caráter asilar, normalmente destinadas a dependentes químicos e outros, com viés moralista, disciplinar e religioso, na carona de um ideário de “guerra às drogas”.

Nelas, os usuários voltam à lógica de que precisam ser corrigidos e que devem ser submetidos à vontade dos outros, os quais, para salvá-los, decidem como devem dividir o tempo de seus dias e com quem podem se comunicar e se relacionar. O eixo central do tratamento proposto é a abstinência, o isolamento e a restrição do convívio social, familiar e comunitário, na contramão da Lei 10216/2001.

  1. Vai ver o mar. Não desgruda da enfermeira.

Cárcere privado, tortura, sedação, trabalho escravo. Essa é a realidade das Comunidades Terapêuticas estampada no Relatório Nacional de Inspeção realizado em outubro de 2017, em comunidades de cinco regiões do Brasil, em uma iniciativa da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC/MPF) – em conjunto com o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT).

  1. Gosta de ouvir música, dançar e comer bala de coco.

A Lei 13840, de 2019 escancara as portas para investimento público em Comunidades Terapêuticas ao mesmo tempo em que crescem denúncias, nas Promotorias de Justiça, de atrocidades praticadas em suas dependências.

A Resolução 03/2020, do CONAD, autoriza a internação de adolescentes em comunidades terapêuticas.

  1. BEATRIZ. Vira estatística. É uma das 162 mil vidas perdidas para a COVID.

“Lembro daquela senhora negra, de cabelos brancos, em uma festa junina tri bonita, muitas barracas, quadrilha e eu de padre. Fizemos um casamento bem animado: era noivo fugindo, noiva chorando, padre rezando…ela estava lá, com sua pasta azul e o jaleco branco. Me disse: – Filhinha padre, que regulamento é esse? – É o regulamento da alegria, disse, e fui levando Beatriz para a roda da dança.”, conta a enfermeira do Cândido Ferreira, Maria Eugenia.

Maria Eugenia também engrossa uma estatística: a dos profissionais de saúde mental desse país que jamais desistirão de lutar pela liberdade dos corpos, contra o medo de enxergar a loucura que nos habita e a morte em vida.

Seguem rigorosamente o regulamento da alegria, ainda que, como ensinou Walter Benjamin, “o passado não cesse de existir”. Estão ali, atentos e fortes, para enxergar, amar e libertar as loucas dos cadeados que ainda não aprenderam a usar.

Haverá sempre alguém, ao lado dos demasiadamente humanos, para a partilha do mar e da chuva em forma de bolinho.

 

Referências:

[1] SILVA, Maura Lima Bezerra e; CALDAS, Marcus Tulio. Revisitando a técnica de eletroconvulsoterapia no contexto da reforma psiquiátrica brasileira. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 28, n. 2, p., dez. 2008.

2  Franco Basaglia, dentre outras obras, indica-se: BASAGLIA, Franco. A instituição negada. Rio de Janeiro: Graal, 1985. 326 p.

3 BRANCO, Thayara Castelo. O Holocausto manicomial: trechos da história do maior hospício do Brasil!. 2015. Disponível em: <https://www.justificando.com/2015/03/05/o-holocausto-manicomial-trechos-da-historia-do-maior-hospicio-do-brasil/>. Acesso em: 05 mar. 2015.

 

*Cristiane Correa de Souza Hillal é promotora de Justiça MPSP e integrante do Coletivo Transforma MP.