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Manifesto em apoio à Margaret Matos de Carvalho

O Coletivo por um Ministério Público Transformador – Coletivo Transforma MP, entidade associativa sem fins corporativos ou lucrativos formada por integrantes do Ministério Público brasileiro engajados na luta pela democracia e pela cidadania, vem à público solidarizar-se com a Procuradora do Trabalho Margaret Matos de Carvalho, punida disciplinarmente com a pena de censura pelo Conselho Nacional do Ministério Público – CNMP em razão de postagem feita em rede social.

O membro do Ministério Público, como qualquer cidadão ou cidadã, goza do direito à liberdade de expressão, delineada nos termos da Constituição Federal, com a ressalva da proibição da prática de atividades político-partidárias, o que, indiscutivelmente, não é o caso. No mesmo sentido, é o conteúdo expresso na Recomendação de Caráter Geral n. 01/2016, da Corregedoria Nacional do próprio CNMP.

Mostra-se discutível o CNMP agir de ofício, em defesa da honra alheia, sem que a própria pessoa tenha feito qualquer movimento para a reparação de eventuais danos à sua imagem, fazendo do processo disciplinar instrumento de censura. Ao agir assim, o órgão de controle extrapola as possibilidades de resolução de conflitos que até no âmbito penal dependem de representação ou ação do próprio ofendido.

Ademais, parece não ter sido respeitado o princípio da razoabilidade por parte do órgão, uma vez que, sendo a primeira punição da carreira da Procuradora, foi-lhe aplicada a segunda punição mais grave, ou seja, a censura. Se houve descumprimento de deveres funcionais, mais adequada e objetiva seria a medida de advertência.

Por fim, mostra-se despicienda a publicização da punição, da forma como feita pelo CNMP. Tal conduta expõe o membro do MP, que ainda pode questionar o ato judicialmente.

Desta forma, o Coletivo Transforma MP manifesta seu apoio e respeito à colega Margaret Matos de Carvalho, convidando os conselheiros do CNMP a refletir sobre as questões colocadas acima, a fim de aprimorar o importante trabalho de controle e orientação dos ramos do Ministério Público brasileiro.

Sobre ‘pandemias’, ‘hemorroidas’ e a ‘política do absurdo’ no Brasil de 2020

por Fabiano de Melo Pessoa* no GGN

 

Encerramos uma semana em que, na última sexta-feira, 22 de maio, fora divulgado vídeo de reunião ministerial na qual o Presidente da República e seus Ministros de Estado tratam de temas variados de maneira, digamos, nada convencional, para o que se pode esperar de um encontro de trabalho de qualquer órgão da República.

Tem-se que a reunião se deu em 22 de abril, deste já longuíssimo ano de 2020, portanto, em pleno desdobramento da crise que nos abate e que a todos aflige. Já naquela data, a gravidade da situação estava evidente, com a morte de quase três mil pessoas. Hoje, 25 de maio, contamos com mais de 23 mil mortes, oficialmente registradas, como oriundas da contaminação pelo Corona vírus. Uma tragédia sem precedentes!

Contudo, não há, até o momento, perspectiva de diminuição imediata no crescimento da curva de contaminados e mortos. Tampouco, conseguimos identificar uma estratégia clara e eficiente de combate aos efeitos devastadores desta crise.

Deparamo-nos, portanto, quando da reunião ou na data de hoje, com um cenário perturbador, no que parece constituir uma sequência errática de encaminhamentos relativos à crise sanitária mais grave dos últimos tempos. E, em se tratando das autoridades responsáveis pelo controle dos órgãos executivos da União, pelo que se pode constatar no vídeo divulgado, as quais deveriam coordenar os esforços em um estado federado, como o nosso, a resposta parece estar deslocada da realidade da tragédia que enfrentamos e desfocada do enorme problema que nos vemos forçados a lidar.

Com a divulgação do vídeo da reunião ministerial, a situação alcança, assim, cores e formas ainda mais marcantes, para não dizer surreais.

Entretanto, impressiona, neste contexto, a forma como um conjunto de pessoas, inclusive dentre aquelas tidas como “esclarecidas”, e essa é a nota que traz a situação para patamares ainda mais críticos, tem reagido a tudo isso.

A crise sanitária tem produzido, como todos nós podemos perceber, um abismo entre as reais necessidades da nossa população, de acordo com os consensos técnicos até aqui estabelecidos, e as ações adotadas pelo governo central, marcado pela posição, mais das vezes, negacionista das evidências científicas.

Como pudemos observar, em palavras, gestos e “palavrões”, pretende-se promover, em meio à crise, o aprofundamento de medidas que, em muitos dos casos, rompem com os limites de moralidade pública ou da legalidade constitucional.

Fomos apresentados, a partir da divulgação deste vídeo, à pretensão do Presidente da República, dentre outras coisas, em “armar a população” para se contrapor às medidas de Governadores e Prefeitos, posto que violadores da “liberdade”, da “honra” e, nas expressas palavras do Presidente, das “hemorroidas” dos “cidadãos de bem” brasileiros.

Tomamos conhecimento do que pensa o nosso Ministro da Educação sobre as nossas minorias e do seu ódio a elas, expresso especificamente aos “povos indígenas” e ao “povo cigano”, ou a qualquer outro “povo” que não seja, em sua definição, a qual gostaríamos de melhor conhecer, o “povo brasileiro”.

E se, estas constatações, feitas em som, cores, imagens e outros arroubos autoritários, distantes dos marcos de uma liturgia que se espera existir em reunião do Conselho de Ministros da República, não se mostrassem suficientemente estarrecedoras, somos também, digamos, “apanhados”, por uma recepção pública que, quando não as naturaliza, chega, em alguns casos, a tê-las como expressão “bem-vinda”, pasmem, de “autenticidade” de seus personagens.

Ora, é neste cenário que percebemos que nos encontramos abatidos não apenas por uma crise sanitária, de gravíssimas proporções, mas por uma crise, também de enormes dimensões, no que diz respeito à capacidade de compreensão do que vivenciamos, por parte de parcela da população.

Ademais, diante disso tudo, ao menos por alguns instantes, desviamos o olhar das dramáticas questões humanitárias enfrentadas, de formas tão distintas, pelas diferentes parcelas de um povo tão desigualmente distribuído, no que diz respeito a riquezas, oportunidades e direitos.

Somos levados a esquecer que, na verdade, em meio a uma crise comum, que a todos abate, não podemos dizer que vivemos apenas uma “pandemia”, quanto aos seus efeitos concretos, mas “pandemias”, se observarmos as diferentes maneiras em que a crise sanitária atinge e afeta, um Brasil tão desigual.

Mas, nada disso parecia relevante ao Conselho de Ministros, ali reunido. Outros, nos faz crer o contexto, desviantes da nossa atenção com a crise, pareciam ser os objetivos pretendidos, em prognósticos e estratégias lançadas mediante reveladoras e desinibidas manifestações.

Surpreendemo-nos ao constatar que, em meio a tantas mortes e sofrimento, não eram esses os principais temas tratados pelo colóquio ministerial. Desinformação e, digamos, diversionismo, quando o que mais precisaríamos seria de informações claras e de foco na busca por soluções, se mostram como as tônicas do encontro.

Isso, agora, sob olhares lenientes de parcela da população que, em meio a fustigações de feridas profundas e de sofrimentos verdadeiros, parece não se sensibilizar, ou ao menos não se importar, com quadro tão desfuncional da dinâmica institucional.

No embalo de um processo novo e poderoso de uma multitude de (des)informações, nos deparamos com uma nova categoria de “expectativa pública”: a de uma “política do absurdo”!

E isso tudo, a mim me parece, por demais chocante.

*Fabiano de Melo Pessoa – Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Pernambuco. Membro do Coletivo por um Ministério Público Transformador – Transforma MP.

O ministro, o presidencialismo de hoje e a pausa democrática de ontem – e o que será do amanhã?

Portanto, que fique a lição de que em uma democracia não há espaço para pausas democráticas e que, muita vez, diante de um golpe iminente e de uma ruptura institucional ilegítima, a ira talvez seja o melhor caminho, antes da leniência

Por Rômulo Moreira* no GGN

Numa entrevista publicada hoje (25), o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Carlos Ayres Britto, afirmou, dentre outras coisas, que é preciso “fazer da Constituição mesa redonda sempre para, nos marcos dela própria, encontrar os critérios de resolução de quaisquer dissensos, controvérsias e contendas instabilizadoras da vida coletiva”, pois, segundo ele mesmo afirma – e algo um tanto quanto óbvio! – “a Constituição governa permanentemente quem governa transitoriamente”.[1]

No entanto, a frase de destaque dada à entrevista – como se fora un gran finale -, foi a seguinte: “O presidencialismo é maior que o presidente da República e o governo maior que o governante”. Por sem dúvida, convenhamos, uma bela frase!

Ele aproveitou o ensejo para citar muito bem outro grande jurista nordestino, Ruy Barbosa, quando escreveu que: “salvação sim, salvadores não”[2]; além de Bertolt Brecht, ao dizer certa vez: “triste de um povo que precisa de heróis, de chefes, de líderes.”

Boas lembranças, também sem dúvidas!

No entanto, o que notei da entrevista de agora, foi uma absoluta incompatibilidade com algo que dissera outrora o notável jurista sergipano quando, em uma palestra proferida no dia 22 de abril de 2016 (em plena efervescência do golpe institucional que estava em curso), falando para estudantes da Universidade de Harvard e do Massachusetts Institute of Technology, durante painel do evento Brazil Conference, e esclarecendo dúvidas da plateia (formada especialmente por estudantes brasileiros) sobre a legalidade do processo de impeachment (quando era considerado um dos notáveis a integrar um possível governo Temer), afirmou que o Brasil vivia um momento de “pausa democrática com freio de arrumação para ideias, valores e processos da sociedade brasileira.”

À época, segundo ele, quem não estivesse “com o cinto de segurança da decência, da transparência e do dever de casa cumprido iria se machucar seriamente.” Confrontado, então, sobre a legitimidade do pedido de afastamento da então presidente, o ex-ministro, categórica e incisivamente, afirmou que o processo que então vivíamos era um “antídoto contra a deslegitimização no exercício do cargo, pois o presidente se reveste pela voz das urnas, mas não basta esse requisito que é fundamental por ser democrático. É preciso prosseguir na legitimidade prevista no artigo 37 da Constituição.”[3]

Como um arremate otimista, o ministro finalizou aquela sua palestra, firmando-se na certeza de que iríamos “sair daquela enrascada, daquela encrenca, muito mais engrandecidos, na companhia da Constituição.”[4]

Bem, aqui, como se vê no Brasil de hoje, o ministro errou na sua prognose, pois, muitíssimo pelo contrário, saímos “daquela enrascada e daquela encrenca”, parafraseando-o, mais apequenados e bem longe dos valores mais caros à nossa Constituição, como se viu, apenas por exemplo, na pletora de absurdidades que foram ditas em uma tal reunião ministerial, onde sobraram palavrões, ofensas pessoais, arroubos autoritários, bravatas antidemocráticas, idiossincrasias odiosas, dentre outras aleivosias.

Portanto, que fique a lição de que em uma democracia não há espaço para pausas democráticas e que, muita vez, diante de um golpe iminente e de uma ruptura institucional ilegítima, a ira talvez seja o melhor caminho, antes da leniência, pois, conforme Ruy Barbosa (e o cito apenas em homenagem à lembrança do ministro), “nem toda a ira é maldade, porque a ira, se, as mais das vezes, rebenta agressiva e daninha, muitas outras, oportuna e necessária, constitui o específico da cura. Então, não somente não peca o que se irar, mas pecará, não se irando.”[5]

Para concluir, e em mais uma sincera homenagem ao ministro, cito também, como ele o fez, um trecho da dramaturgia brechtiana, quando a vivandeira Anna Fierling, conhecida pelo apelido de Mãe Coragem, disse ao jovem soldado que acabara de se sentar:

“Não adianta levantar-se, agora: nunca mais voltaria a estar de pé como estava ainda há pouco. Não precisa ficar encabulado por minha causa: eu também sou assim, não sou nada melhor. Já nos compraram todo o nosso brio.”[6]

Rômulo de Andrade Moreira – Procurador de Justiça no Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da Universidade Salvador – UNIFACS

[1] Disponível em: <https://atarde.uol.com.br/politica/noticias/2128302-o-judiciario-nao-governa-mas-impede-o-desgoverno-diz-ayres-britto>. Acesso em: 25 de maio de 2020.

[2] Trata-se, na verdade, de uma das características marcantes de uma democracia delegativa, “fortemente individualista, pressupondo-se que os eleitores escolhem, independentemente de suas identidades e filiações, a pessoa que é mais adequada para cuidar dos destinos do país”, resultando em eleições marcadas por um caráter “muito emocional, envolvendo várias apostas.” Possivelmente, este fenômeno ocorreu em nossas últimas eleições majoritárias, quando uma terrível polarização foi determinante na eleição do atual presidente, dentre outros fatores, evidentemente. Desse modo, tratando-se de verdadeiros salvadores da pátria (“fortes, corajosos, machos e acima dos partidos e interesses), eles têm a obrigação “de aplicar à nação os remédios amargos que, embora muitos de seus membros não possam reconhecê-lo agora, a curarão.” Assim, constitui-se um “governo de salvadores”, com um “estilo mágico de elaboração de políticas”, tornando-se comuns os pacotes, os decretos (“decretismo”), as medidas provisórias, etc. (O`DONNELL, Guillermo. Democracia Delegativa? Revista Novos Estudos CEBRAP. São Paulo, nº. 31, Outubro/1991, pp. 25-40).

[3] “A administração pública direta, indireta ou fundacional, de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade.”

[4] Disponível em: <https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-vive-pausa-democratica-para-freio-de-arrumacao–diz-ayres-britto,10000027535>. Acesso em: 25 de maio de 2020.

[5] BARBOSA, Ruy. Coletânea Literária. São Paulo: Companhia Editora Nacional, p. 327.

[6] BRECHT, Bertold. Coleção Teatro de Bertold Brecht – Volume I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976, p. 59.

Deborah Duprat: o ‘até logo’ de uma heroína constitucional

Deborah colheu expressivas vitórias no STF, que ajudaram a colorir com tintas mais humanistas o direito brasileiro contemporâneo

Por Daniel Sarmento* e Julio José Araújo Júnior**

Na peça “A vida de Galileu”, Bertolt Brecht nos adverte que são “infelizes os povos que precisam de heróis”. Porém, mais do que nunca, o país precisa de pessoas corajosas, íntegras e competentes para resistir à monstruosidade do fascismo, no seu ataque à vida, aos direitos humanos mais básicos, à democracia, à civilização. O momento atual é de tristeza e de temor diante não só da pandemia, como também do autoritarismo crescente, que ameaça gravemente o nosso pacto constitucional. Nessas horas difíceis, é importante recordar e celebrar o exemplo daquelas e daqueles que, com sacrifício pessoal, lutam por todos nós, porque nos inspiram a também resistir.

Na área do direito, ninguém tem sido tão importante na resistência ao desmonte da nossa democracia constitucional do que Deborah Duprat, cujo segundo mandato como Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão se encerra nesta semana.

Deborah ingressou no Ministério Público Federal em 1987, quando a Constituição estava sendo elaborada no Congresso Nacional. Desde então, ela tem encarnado como ninguém os valores emancipatórios da Constituição de 88, na defesa dos direitos humanos, especialmente dos grupos vulneráveis, e na proteção da democracia e das liberdades públicas.

Pela sua atuação combativa, tecnicamente impecável, progressista e sempre muito próxima da sociedade civil, Deborah se tornou o símbolo maior do modelo de Ministério Público que o constituinte quis erigir. O Ministério Público que defende intransigentemente a cidadania e não se acovarda diante das autoridades e dos poderosos. O Ministério Público que frequenta muito mais as comunidades pobres do que os salões de palácio. O Ministério Público que não luta por vantagens corporativas duvidosas, não se liga em rapapés, não perpetra bacharelismos. E que nunca atua com seletividade política, nem afronta direitos e garantias no desempenho das suas funções.

Deborah Duprat teve atuação histórica na proteção de povos indígenas e populações tradicionais, tendo coordenado, por muitos anos, a 6ª Câmara de Coordenação e Revisão da PGR, que trata da matéria. Sempre muito próxima das comunidades étnicas, atenta às suas vozes e demandas, ajudou a construir e a difundir entre colegas mais jovens um modelo de atuação muito combativo, interdisciplinar – Deborah é uma estudiosa da Antropologia –, porém nada paternalista, eis que inspirado pelo mais profundo respeito à diferença.

Em 2009, Deborah foi, por apenas 22 dias, Procuradora-Geral da República interina. O mandato de Antônio Fernando de Souza tinha se encerrado, e o governo federal ainda não havia escolhido e indicado ao Senado o seu sucessor. Como vice-presidente do Conselho Superior do Ministério Público Federal, coube à Deborah a chefia do Ministério Público da União durante o período de interinidade. Feminista, foi a primeira mulher a desempenhar a função de Procuradora-Geral da República.

Naquele brevíssimo intervalo, Deborah Duprat propôs algumas das ações mais importantes da história da PGR.
A instituição tinha, até então, uma atuação tímida na jurisdição constitucional, voltada no mais das vezes a temas menores, muitas vezes corporativos. Rompendo essa tradição, Deborah ajuizou, entre inúmeras outras ações, a que resultou no reconhecimento da união homoafetiva; a que liberou a realização da “Marcha da Maconha” em nome da liberdade de expressão; a que possibilitou a mudança do nome de transexuais, independentemente de operação de redesignação sexual; a que liberou o exercício da profissão de músico, mesmo sem o registro corporativo na Ordem dos Músicos do Brasil.

Teve também a coragem de alterar o retrógrado posicionamento da PGR na ação que discutia a interrupção de gestação de fetos anencéfalos, manifestando-se favoravelmente à possibilidade, em nome da proteção à dignidade humana da gestante. Em todas essas atuações históricas, Deborah colheu expressivas vitórias no STF, que ajudaram a colorir com tintas mais humanistas o direito brasileiro contemporâneo.

Em 2013, Deborah Duprat concorreu à eleição informal para lista tríplice ao cargo de Procurador-Geral da República. Embora já fosse figura quase mitológica entre as procuradoras e procuradores ligados à cidadania e aos direitos humanos, Deborah, conquanto bem votada, terminou em terceiro lugar no pleito, vencido por Rodrigo Janot.

Seu desconforto com temas estritamente corporativos e suas posições mais progressistas do que a média do corpo eleitoral não a favoreceram. Olhando em retrospecto, vemos agora que a história nacional talvez tivesse sido diferente se as instituições houvessem respeitado incondicionalmente os direitos fundamentais e a neutralidade política no necessário combate à corrupção. Talvez o ovo da serpente do populismo de extrema-direita não tivesse sido chocado. Pela sua personalidade e seus princípios, Deborah poderia ter ajudado a impor os limites que faltaram.

Em 2016, Deborah se tornou Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), função da qual está agora se despedindo. Ao longo desses últimos anos tão difíceis para o país, a marca da PFDC foi a combatividade na defesa da Constituição de 1988, especialmente das liberdades públicas e dos direitos das populações marginalizadas.
Ainda durante o governo Temer, Deborah Duprat cerrou fileiras contra a emenda constitucional que estabelecera o teto de gastos (EC nº 95), diante do seu nefasto impacto para a efetivação dos direitos sociais, sobretudo saúde, educação e assistência social. A paralisação total da reforma agrária também foi fortemente contestada, e a PFDC reativou o fórum por direitos e combate à violência no campo, que havia sido criado quando do massacre em Eldorado dos Carajás (1996).

As liberdades receberam total prioridade. A PFDC se destacou, por exemplo, na defesa de uma educação livre e aberta, opondo-se ao projeto autoritário do “Escola sem Partido”. Deborah se empenhou na proteção das liberdades artísticas, como no episódio da exposição Queermuseum, em que se posicionou contra formas de censura mal travestidas em preocupação com crianças e adolescentes.

Após a ascensão ao poder de Jair Bolsonaro, o quadro de violações aos direitos humanos no Brasil se agravou tremendamente. Nesse período, Deborah Duprat tem sido incansável, combatendo e impugnando quase todos os dias os atos autoritários do governo federal, que se sucedem em escalada impressionante. Tem contestado políticas inconstitucionais, como a ampliação do acesso a armas e munições, que desvirtuou o bem sucedido Estatuto do Desarmamento; a extinção ou desestruturação dos espaços de participação da sociedade civil no Estado; as celebrações governamentais da ditadura militar; a desnaturação da Comissão de Anistia e da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos; os ataques e perseguições a jornalistas e veículos críticos ao governo. Cada investida autoritária é seguida, quase imediatamente, por uma resposta jurídica cirúrgica da PFDC, a desvelar seu despropósito constitucional.

A que horas ela dorme? Como consegue manter a saúde e suportar tanto peso sobre os ombros?

Alguém poderia imaginar que, em final de mandato, e diante do isolamento social imposto pela pandemia, o trabalho de Deborah se retrairia. Ledo engano. A sua luta cotidiana tem continuado em ritmo acelerado e em várias frentes, como o combate à discriminação odiosa na concessão do auxílio emergencial a familiares de presos; a defesa do adiamento do ENEM, em favor do acesso igualitário dos alunos mais pobres; a batalha pela suspensão de reintegrações de posse coletivas em tempos de pandemia; a tentativa de responsabilização do presidente da Fundação Palmares pelos ataques racistas a Zumbi e ao movimento negro.

Pela sua atuação corajosa e emblemática, Deborah Duprat é justamente celebrada pela sociedade civil brasileira, pelos movimentos sociais, pelos defensores de direitos humanos, por colegas do Ministério Público, por acadêmicos e professores, por ministros do STF, por legiões de excluídos beneficiados por sua luta incansável ao longo de tantos anos. Pelas mesmas razões, ela atraiu haters e detratores, que boicotam suas iniciativas, espalham inverdades e deturpam sistematicamente as suas falas e atuações.

Sempre do lado certo, ela venceu muitas batalhas e foi derrotada em outras tantas. Não houve seletividade: bateu em todos os governos que violaram direitos, da esquerda, do centro, da direita e da extrema-direita.
Seu metro sempre foi a Constituição, nunca a política ou suas próprias ambições. Quem dera todos fossem assim. Brava, nunca perdeu a ternura. Plantou sementes de emancipação no solo constitucional: algumas já floresceram, outras ainda hão de desabrochar. Inspirou várias gerações de discípulos, como os autores deste texto. Ao deixar a PFDC, deve se aposentar no MPF, mas certamente continuará lutando pela Constituição cidadã e pelos direitos humanos em outras frentes.

Afinal, Deborah é daquelas que lutam por toda a vida. A sua trajetória imprescindível será sempre lembrada e contada para além dos muros do MPF. E a referência continuará cada vez mais marcante, quando desejarmos pensar em um Ministério Público comprometido com a justiça e com a igualdade.

Na abertura de uma obra clássica do Direito Constitucional norte-americano – Democracy and Distrut, de John Hart Ely –, o autor dedica o livro a Earl Warren, que presidiu a Suprema Corte do país no momento em que ela foi mais progressista. Suas palavras: “Você não precisa de muitos heróis se você escolher com cuidado”. A nossa se chama Deborah Duprat.

*DANIEL SARMENTO – Professor titular de Direito Constitucional da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e advogado.
**JULIO JOSÉ ARAUJO JUNIOR – Procurador da República no Rio de Janeiro. É mestre em Direito Público pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e graduado em Direito pela Universidade de São Paulo, em 2005.

Transforma MP e ABJD lançam nota em defesa do povo Omagua-Kambeba

 

O coletivo por um Ministério Público Transformador – Transforma MP, associação formada por membras e membros dos Ministérios Públicos dos Estados e da União, e a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD, pautando-se na defesa intransigente da democracia e da ordem jurídica, conforme estabelecida na Constituição Federal, vêm manifestar publicamente seu repúdio aos violentos ataques lançados ao povo Omagua-Kambeba, da comunidade de Santa Terezinha, região do Alto Solimões do Município de São Paulo de Olivença, interior do Estado do Amazonas, Brasil.

Após denúncias pelo descaso governamental na adoção das medidas de proteção à aldeia e à saúde comunitária em face do novo coronavírus, a cacique Eronilde Femin Kambeba e o cacique Melquides Ventura Neto Kambeba passaram a sofrer ameaças de morte. As intimidações se intensificaram após a Universidade Popular dos Movimentos Sociais e a Associação Nacional de Pesquisa em Educação terem realizado uma campanha junto à mídia independente e universidades do Brasil e de Portugal para que o povo Kambeba recebesse alimentos e produtos de higiene e proteção contra o vírus, apelo que se tornou público no programa da TV 247, em parceria com os Jornalistas Livres, transmitido no último 01 de maio.

O episódio revela a escalada da violência contra os povos indígenas e as comunidades tradicionais, resultado das políticas adotadas por um governo anti-indígena que fomenta o desmatamento, a grilagem e a especulação fundiária, promovendo o aumento dos conflitos no campo, das invasões de terras e da violência contra sindicalistas e líderes indígenas, sobretudo na Amazônia brasileira, alvo de garimpo e expansão agropecuária.
Nesse sentido, as entidades signatárias:

1. Manifestam sua solidariedade à cacique Eronilde Femin Kambeba, ao cacique Melquides
Ventura Neto Kambeba e a todo o povo Omagua-Kambeba;

2. Repudiam a política de extermínio de indígenas levada a cabo por parte da elite brasileira
que assumiu o lugar do colonizador e continuou a governar as comunidades tradicionais por
meio de antigos métodos;

3. Exigem providências das autoridades competentes em relação aos responsáveis pelas
ameaças, bem como total amparo ao povo Omagua-Kambeba.
Brasília, 18 de maio de 2020.

Ministério Público Transformador
Associação Brasileira de Juristas pela Democracia

Bolsonarismo em tempos de pandemia: entre o fascismo e a barbárie

A terceira vertente do pensamento autoritário de direita é o princípio sagrado do mito da pátria, que une as pessoas numa identidade nacional homogênea

Por Jacson Zilio e Eduardo Miranda

I

 Duas categorias fundamentais para pensar o presente

Há duas categorias fundamentais para se pensar os ásperos tempos atuais na política brasileira do bolsonarismo: fascismo e barbárie. Pelo fascismo abre-se uma leitura que permite avaliar o retorno do movimento conservador de direita na política das democracias ocidentais. Por outro lado, a noção de barbárie, como retrocesso do processo civilizatório, desvela as entranhas do capitalismo na periferia do mundo, cuja violência e autoritarismo são instrumentos eficazes para formação e consolidação da estrutura social desigual brasileira.

II

Neofascismo

Os camisas verdes de Plínio Salgado, de 1932, constituíam um movimento fascista de milícias armadas e uniformizadas, inspirado na organização paramilitar Fascio di Combattimento de 1919. Os integralistas, conhecidos como “galinhas verdes”, usavam da retórica do antipartido e da antipolítica. Assim, rechaçavam ideias pré-concebidas. A doutrina fascista é o fato, assim como disse Il Duce: “Noi fascisti non abbiamo idee precostituite, la nostra sola dottrina è il fatto” (SCURATI, Antonio. M. Il figlio del secolo. Firenze/Milano: Bompiani, 2019, p. 112). Essa lógica, contudo, não desapareceu. Como disse ECO, se pode jogar o fascismo de muitos modos, mas o nome do jogo não muda. Mesmo que a categoria fascismo tenha sido propositalmente banalizada por discursos emocionais, ela ainda oferece a melhor radiografia das raízes da violência política e do autoritarismo, marcas profundas e identitárias. O fascismo é uma categoria eminentemente política e vem corporificada nas dimensões organizativas, culturais e institucionais (GENTILE, Emilio, Il fascismo in tre capitoli. Roma: Laterza, 2004, pp. 114-116). Entre nós, KONDER destacou três características operacionais estratégicas do fascismo: a) pragmatismo radical; b) identidade da teoria e da prática; c) existência de um princípio sagrado/valor supremo para engajamento e motivação de cidadãos (KONDER, Leandro. Introdução ao fascismo. Rio de Janeiro: Graal, 1977).

(a) O pragmatismo radical explica-se pelo irracionalismo de “ação por ação”. Pensar, para os pragmáticos radicais, é uma “forma de castração” (ECO, Humberto, Contra el fascismo. Barcelona: Lumen, 2018, p. 39. O método é a propaganda simplista, quando não constituída de falsidades, para convencimento das classes populares. Não há formalismo. Parece propaganda moderna no pior sentido possível: novo estilo, simples e vulgar. Com isso, disfarça-se o conteúdo conservador e as atenções são fixadas no novo estilo (redes sociais, por exemplo). Assim, quando o número de mortes pela COVID-19 aumenta diariamente, o pragmatismo retorna: o presidente Bolsonaro minimizou os danos e a gravidade da situação.[3] Ainda em março de 2020 afirmou em pronunciamento em cadeia nacional que “o que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade. Noventa por cento de nós não teremos qualquer manifestação, caso se contamine.” Foi nesse discurso que o presidente falou sobre seu “histórico de atleta”: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”. Mas Bolsonaro não apenas minimizou publicamente o alcance do vírus, como também propôs um tratamento alternativo baseado em medicamento sem efeitos científicos comprovados. Por outro lado, o pragmatismo também não descarta o uso de propagandas falsas. Descobriu-se por meio de informações divulgadas pela imprensa, embora o inquérito no (STF) tramite sob sigilo, que empresários apoiadores de Bolsonaro estariam financiando também convocações para atos que pedem intervenção militar, a volta do AI5 e o fechamento do Congresso/STF. Já a CPMI das chamadas Fake News revelou a mecânica dos ataques e agravou o racha político na base bolsonarista no Congresso. Em 4 de dezembro, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), ex-aliada de Bolsonaro, acusou os filhos do presidente de comandar um “gabinete do ódio“, de dentro do Palácio do Planalto. “Escolhe-se um alvo. Combina-se um ataque e há inclusive um calendário de quem ataca e quando. E, quando esse alvo está escolhido, entram as pessoas e os robôs. Por isso que, em questão de minutos, a gente tem uma informação espalhada para o Brasil inteiro“, afirmou a deputada.[4] Segundo a relatora da CPMI das Fake News, a deputada federal Lídice da Mata (PSB-BA), a lógica de atuação do Bolsonarismo é a seguinte: “Bolsonaro pula de galho em galho em busca de um novo inimigo para manter a adrenalina de seu grupo de cachorros loucos.  É assim que funciona o processo de construção de fake news no Brasil (…)Eles atacam todos aqueles que pensam diferente. Foi assim com Mandetta e os governadores e é assim agora contra Maia e Davi Alcolumbre, o Congresso. A fala do presidente é sempre uma senha (…). Depois são impulsionadas pelos filhos dele e por alguns de seus principais expoentes parlamentares. Dessa forma são disseminadas.[5] Só para se ter uma ideia, o aplicativo Whatsapp já é considerado a rede mais difundida entre os eleitores brasileiros. É utilizado por 66% deles, ou seja, quase 100 milhões de pessoas, segundo revelou o Datafolha. Devido às particularidades da ferramenta (conversas de caráter privado/mensagens criptografadas), os chamados “grupos de whatsapp” tornam-se espaços de disseminação de informação sem praticamente nenhum controle. Para além disso, o aplicativo é usado principalmente pelas subalternas, que aderem, de forma gratuita, a planos de telefonia com pacotes restritos de dados. No limite, essa condição restringe o acesso as informações somente por meio do aplicativo, ou seja, sem possibilidade de clicar em links ou verificar na rede a origem/veracidade das mensagens.

(b) A identidade da teoria e da prática é outra estratégia do pensamento autoritário. A direita rouba do marxismo o valoroso conceito de unidade entre ação e teoria. Há, no pensamento marxista, uma teoria da práxis como unidade dialética do objetivo e do subjetivo, das condições econômicas e da vontade consciente. A categoria da totalidade do todo sobre as partes. É por isso que se deve ter uma prática unida à teoria, ou seja, unida e não idêntica. Nesse sentido, a teoria é a crítica da prática. Não é, portanto, uma identidade com a prática. A união dela não faz com que desapareça o poder de crítica de transformação da realidade. Há aqui esse abandono da crítica justamente porque a teoria está de joelho para a prática. Para o pensamento conservador, a teoria não tem nenhum valor se ela não estiver identificada à prática. Aí se compreende também os constantes ataques ao intelectualismo e à universidade, por exemplo, pois o conservadorismo não quer uma teoria que critique a prática, mas uma teoria acoplada e idêntica à prática. Por isso, concomitante com os disparos nas redes sociais, Bolsonaro empenha-se em descumprir as recomendações de isolamento social da Organização Mundial da Saúde (OMS). Como no episódio de sua ida a uma padaria (9 de abril). Fato registrado em vídeo e publicado nas redes sociais do filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Na manhã do dia 19 de abril, Bolsonaro participou de ato em Brasília que pedia intervenção militar, fechamento do Congresso e do STF, ao mesmo tempo em que editou uma Medida Provisória (MP-926) que buscava concentrar no governo federal o poder para a adoção de medidas sobre manutenção de serviços, transporte de bens e movimentação de pessoas durante a pandemia. Como se percebe no caso da pandemia, as medidas de saúde recomendadas para contenção da COVID-19, por autoridade médicas nacionais e órgãos externos, são desprezadas: há, no lugar, apenas uma prática. Em suma: teoria de joelho à prática.

(c) A terceira vertente do pensamento autoritário de direita é o princípio sagrado do mito da pátria, que une as pessoas numa identidade nacional homogênea. Isso ficou muito claro no fascismo da Itália e da Alemanha, que se assentou na ideia de identidade nacional própria. O prevalecimento da ideia de pátria deu lugar ao perigoso consumo do social pelo nacional.  HITLER disse, em 1922, que “o nacional e o social são dois conceitos que estão num só” (National und Sozial sind zwei identische Begriffe), expressando a ideia de que é necessário recorrer ao princípio sagrado para unificar as pessoas em torno do mito da pátria. Curiosamente, a necessidade de recorrer ao conceito nacionalista só funciona seletivamente, porquanto desaparece em tantos outros pontos importantes, como quando se trata de temas relacionados ao capital internacional. No campo do capital, o nacional está em completo abandono (na ótica da aplicação do princípio sagrado).

Há um fato que é bem esclarecedor dessa característica: contrariando as recomendações da (OMS) e dirigindo-se a centenas de manifestantes que se concentravam em frente ao Quartel General do Exército, para fazer valer o “princípio sagrado do mito da pátria”, Bolsonaro afirmou: “Nós temos um novo Brasil pela Frente, Todos, sem exceção no Brasil, tem que ser Patriotas e acreditar e fazer a sua parte para que nós possamos colocar o Brasil no lugar de destaque que ele merece”.

III

Barbárie e necropolítica

O capitalismo neoliberal não resiste à crítica da economia política da barbárie. A naturalização das relações sociais – dominadas pelo brilho do dinheiro – é produto da coação socialmente necessária, inclusive em seu estado de regressão (barbárie como dissolução da vida social)O desenvolvimento do capitalismo, especialmente na periferia planetária, tem acelerado uma inversão do processo civilizatório. MENEGAT chamou isso de mudança estrutural regressiva da esfera pública (MENEGAT, Marildo.  A crítica do capitalismo em tempos de catástrofe. O giro dos ponteiros do relógio no pulso de um morto. Rio de Janeiro: Consequência: 2019). O bolsonarismo tem realimentado a gestão dessa barbárie, porque reduz a existência humana às necessidades econômicas. São cada vez mais claras as preferências pela economia em detrimento da vida. Para salvar a riqueza de alguns poucos, não parece existir qualquer limite político. Se massas humanas não conseguiam o elementar das necessidades, agora sequer conseguem viver. As medidas governamentais não apenas restringem os direitos sociais, mas também agora implementam um claro “deixar morrer”. Sabe-se que cerca de 80% dos 210 milhões de brasileiros vivem basicamente nas 27 capitais e regiões metropolitanas do país. O vírus já mata mais na periferia do que no centro. Na capital São Paulo, epicentro da epidemia no país, a maior proporção de vítimas está nos bairros Brasilândia, Sapopemba, São Mateus e Cidade Tiradentes, todos na periferia. Para a maioria da população não há condições básicas para se cumprir o isolamento social. As razões vão desde o não acesso a água tratada até a simples impossibilidade econômica de se isolar em casa. A crise provocada pela COVID-19 revela, portanto, a barbárie da desigualdade social no Brasil.

Ao contrário dos países que melhor contornaram as consequências, com ampla participação do governo na economia (com políticas de renda básica, mobilização de serviços públicos emergenciais, suspensão/cortes nas contas de água, luz, gás, entre outras), Paulo Guedes anunciou em 18 de março o  pagamento de míseros R$ 200 mensais por três meses aos trabalhadores que precisarem de renda. Desde então, o benefício sofreu uma série de alterações na sua formatação, sendo fixado em um valor que é o triplo do proposto originalmente pelo governo. Comparativamente, o Brasil fica bem atrás de outros países no que se refere aos esforços financeiros contra a pandemia. Levantamento divulgado pelo Observatório de Política Fiscal da FGV aponta que os gastos no Brasil equivalente a pouco mais de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), bem inferiores aos 35% do governo alemão e os 17% em alguns países como o Reino Unido e Espanha. E é em meio a essa tendência de aumento de desigualdades e da pandemia que o bolsonarismo prefere suspender salários, contratos de trabalho e atacar direitos trabalhistas em detrimento de suspender/diminuir juros, lucros e dividendos da elite brasileira. Foi o que fez Paulo Guedes ao anunciar a Medida Provisória 927, dia 22 de março de 2020, cujo texto permitia que trabalhadores ficassem com contratos suspensos por até quatro meses. É verdade que o Banco Central anunciou medidas para injetar recursos no sistema financeiro. As medidas anunciadas já podem estar na casa dos R$ 1,216 trilhão em auxílios para o mercado financeiro. Contudo, a contraprestação estaria na flexibilização das medidas de isolamento social, ou seja, mais mortes.  No dia 7 de maio, Bolsonaro e um grupo de empresários foram a pé, do palácio do planalto até o STF, para uma reunião com o presidente do STF, Dias Toffoli. Na oportunidade, aquela patética visita buscava apoio para que as medidas de isolamento fossem amenizadas, algo que se tentou fazer, na sequência, com um decreto para ampliar a quantidade de atividades essenciais em meio à pandemia.

O desespero dos burgueses (empresários, industriais e agentes do mercado financeiro) é explicado já que com o isolamento acabou o imenso lucro, ainda que momentaneamente. Não se discutiram assuntos sobre a segurança sanitária, sobre a vida dos trabalhadores, mas apenas os números da economia. Esses números valem mais que vidas. Retratam, no fundo, o que já ensinava ADORNO, quando definia a barbárie como uma espécie de descompasso entre estágios tecnológicos e civilizatórios: “Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, que, estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização – e não apenas por não terem em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes ao conceito de civilização, mas também por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo, ou na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda esta civilização venha a explodir, aliás uma tendência imanente que a caracteriza” (ADORNO, Theodor W. Educação contra a barbárie. Educação e emancipação, v. 3, p. 155-168, 1995). Em outro sentido, essas mortes podem retratar também o que MBEMBE chama de necropolítica, como forma contemporânea de submissão da vida ao poder da morte. As categorias de necropolítica e de necropoder são armas de fogo dispostas com o objetivo de provocar a destruição máxima de pessoas e criar “um mundo de morte”, formas únicas e novas de existência social. (MBEMBE, Achille. MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N1 Edições, 2019, p. 71). Seja como for, as poucas ações e as muitas omissões governamentais no cuidado da população em tempos de pandemia de COVID-19 parecem indicar o momento de barbárie e de necropolítica, no qual o racismo constitui outra vez o ponto central do poder de distribuição da morte.

IV

Conclusões

MOUNK acredita que o crescimento do populismo autoritário deve-se a conversão drástica do liberalismo antidemocrático à democracia iliberal. Em outras palavras: uma transição de direitos sem democracia à uma democracia sem direitos (MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia. Por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la. São Paulo: Companhia das Letra, 2019, p. 303). A situação do Brasil, no entanto, remete ao questionamento da própria existência da democracia, dado que uma parcela significativa da população vive na miséria e, agora, está diretamente também submetida ao poder de morte. Não há, nesse contexto, como se falar em democracia. Democracia é incompatível com o governo de ricos. Depois de uma vertiginosa redução das desigualdades sociais entre 1985 até 2015, ocorrida sobretudo via a promulgação da Constituição de 1988, programas sociais e políticas públicas, o que se verifica atualmente é uma tendência de crescimento da desigualdade no país, conforme demostram estudos da Pesquisa Nacional por Amostra Domicílios Contínua (IBGE) e do Centro de Políticas Social da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Social). Segundo relatório divulgado em 2019 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Brasil é o sétimo país mais desigual do mundo, ficando atrás apenas de nações do continente africano. O estudo destaca ainda que apenas o Catar tem maior concentração de renda entre o 1% mais rico da população do que o Brasil. O Índice de Gini, que mede a concentração de renda (quanto mais perto de 1, mais desigual), subiu de 0,538 para 0,545, considerando todas as rendas das famílias: trabalho, aposentadorias, pensões, aluguéis e benefícios sociais. No Brasil. o 1% mais rico ganhou, em média, 33,7 vezes o que recebeu o 50% mais pobre (R$ 28.659 contra R$ 850). Nessas condições drásticas de vida, o risco de um massacre pelo COVID-19 é ainda maior. Por fim, contra o COVID-19 a ideologia de gênero, a milícia, a destruição ambiental, o evangelismo, o lawfare, o militarismo, a cura gay, a diplomacia vassala, as fakenews, o refiz, o extermínio dos povos indígenas e o roubo neoliberal não surtem efeito. Contra essa pandemia que avança sobre a humanidade, revelando fragilidades e incompetências governamentais, somente o que historicamente o bolsonarismo sempre combateu é que tem efeito, vale dizer: a cultura, a solidariedade, o trabalho honesto, o conhecimento científico, as universidades, a ciência, os movimentos sociais, a sociedade civil, as políticas públicas de governos legítimos e democráticos, a educação e a saúde pública de um Estado Social e Democrático de Direito forte. No lugar de possível democracia iliberal do populismo autoritário, talvez fosse mais correto falar de neoliberalismo antidemocrático à brasileira, no qual há um retrocesso civilizatório (barbárie) e, consequentemente, um avanço da necropolítica.

Jacson Zilio é Doutor em Direito Penal e Criminologia pela Universidade Pablo de Olavide de Sevilha/Espanha. Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado do Paraná. Membro do Coletivo Transforma MP.

Eduardo Miranda é Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná. Professor da Universidade Católica do Paraná.

Transforma MP promove live para debater saúde pública

O Coletivo Transforma MP promove live para debater saúde pública no Brasil diante da pandemia de Covid que está aterrorizando o mundo e o Brasil.

O debate “Pandemia e o Financiamento da Saúde Pública” será realizado pela Promotora MP/GO e membra do Coletivo Transforma MP, Andrea Beatriz R. de Barcelos, e da Procuradora do MP/SP e Professora da FVG, Élida Graziane.

A live acontecerá no perfil do Coletivo no Instagram: @transforma_mp  no dia 20/05 às 18h.

Diálogos Transformadores

O Coletivo Transforma MP, Núcleo Pernambuco realiza debate online para discutir a pandemia de COVID-19 e desigualdades sociais

A pandemia de coronavirus que está aterrorizando o mundo também está presente no Brasil.

Até o momento foram 241 mil infectados e 16.118 mortos no Brasil.

A população mais pobre sofre com o vírus e suas consequências sociais como desemprego em massa e risco à saúde de seus familiares.

Por esse motivo o Coletivo Transforma MP, Núcleo Pernambuco, realizará o debate “Diálogos Transformadores” que tem o objetivo de discutir os efeitos dessa pandemia que está trazendo graves sequelas para o Brasil e o mundo.

A reunião mediada pelo Promotor MPPE e membro do Coletivo Transforma MP, Fabiano Pessoa, será aberta ao público e acontecerá no dia  20/05 às 15h e conta com a presença confirmada de Bernadete Perez, Anna Karla, Vera Baroni e Tiago Feitosa.

Para participar é só acessar o link: https://meet.google.com/pjq-pxqz-fuz

 

 

 

 

 

 

 

Não foi Bolsonaro quem trouxe a ditadura; foi a pandemia

Artigo de Gustavo Roberto Costa* no GGN

Bolsonaro, com seus inúmeros arroubos autoritários, ainda não conseguiu impor sua vontade sobre as instituições e sobre a sociedade, que, na medida do possível, têm resistido

O coronavírus é grave. Quem quer que negue esse fato (notadamente se for titular de um mandato popular) é um irresponsável incorrigível. São necessárias inúmeras medidas, como o distanciamento social, o uso de máscaras, de álcool em gel, testes em massa, profissionais de saúde capacitados, leitos em UTI e outras, para o adequado enfrentamento da pandemia. Nada disso é fácil e exige grandes sacrifícios por parte da população.

Mas isso não quer dizer que soluções jurídicas altamente autoritárias devem ser aceitas acriticamente pela sociedade. A calamidade pública não é situação que permite a restrição de direitos fundamentais como a liberdade de locomoção. Se a Constituição Federal estabeleceu que somente os estados de defesa e de sítio (cujo formalismo é rigoroso) permitem a restrição de alguns direitos, são somente essas hipóteses – e nenhuma outra – que a permitem.

Ora, como pode um presidente da República, para a limitação dos mais caros direitos (artigos 136 e 137 da CF), ter que ouvir os conselhos nacional e de defesa nacional e, posteriormente, solicitar autorização do Congresso Nacional, a fim de adotar medidas com prazo certo de duração (máximo de 60 dias), e um Prefeito, por exemplo, poder fazê-lo mediante decreto (ato unilateral)? Como pode um juiz de primeiro grau, como aconteceu no Maranhão, decidir quem pode e quem não pode sair de casa?

Como podem os que se dizem democratas concordar com a prisão de pessoas que estão em via pública ou na praia, sozinhas, sem causar qualquer risco de propagação do vírus? Como se pode concordar com o fechamento de espaços públicos para a prática de esportes individuais, se o risco de contágio, nesse caso, é perto de zero (peço aos infectologistas que me corrijam se houver equívoco)? Surfar virou caso de polícia em municípios como Guarujá.

Como se pode concordar com o autoritarismo da Prefeitura de São Paulo, que decidiu pelo rodízio total, 24 horas por dia, dia sim dia não, para metade da frota? Como ficam aqueles que dependem de seus carros para o trabalho, como é o caso dos motoristas de aplicativo?

O governo do Distrito Federal, para não ficar atrás, estipulou multa de até R$ 2.000,00 para quem não usar máscaras (razoabilidade zero). Pelos governos de São Paulo e Rio de Janeiro foram proibidas ainda (a cereja do bolo) manifestações de qualquer tipo – o sonho de todo aprendiz de ditador.

Defender que a restrição de direitos (inclusive por decretos e por decisões judiciais) é a única forma de combater a pandemia lembra um certo desembargador, que defendeu as inúmeras ilegalidades da chamada operação Lava-Jato em razão de “problemas inéditos requererem soluções inéditas”.

O que se exigem são medidas efetivas por parte do Poder Público, a fim de testar o número máximo de pessoas, localizar aquelas que estão infectadas e isolá-las. Instituir a quarentena se for preciso. Impedir aglomerações. Mas, ao invés de perseguir o vírus, os governos resolveram perseguir os cidadãos e cidadãs (com a truculência já conhecida).

Como devem fazer os trabalhadores que não foram liberados do trabalho, e que estão trabalhando em péssimas condições de proteção contra o vírus? Devem aceitar sem protestar? E os trabalhadores que estão sendo demitidos aos montes, agora sem a intermediação dos sindicatos? Devem simplesmente resignar-se? E as comunidades que estejam eventualmente sofrendo violência policial? Também não podem se manifestar em razão da “quarentena”? Devem apanhar caladas?

Deve o povo aceitar a miséria de R$ 600,00 oferecida pelo governo federal calado? Devem aqueles que estão proibidos de trabalhar, mas têm pouca ou nenhuma condição de se manter dignamente, aceitar bovinamente o pouco caso com o qual são tratados por governos como o de São Paulo? Isso sem falar que qualquer pessoa que conviva na periferia dos grandes centros sabe que, lá, a vida está próxima do normal. Poucos podem se dar ao luxo de “ficar em casa”.

Rasgar a Constituição, em nome do combate ao coronavírus, pode ter resultados nefastos num futuro próximo. Bolsonaro, com seus inúmeros arroubos autoritários, ainda não conseguiu impor sua vontade sobre as instituições e sobre a sociedade, que, na medida do possível, têm resistido. Mas alguns movimentos ditatoriais rodeiam o Brasil (e outros países do mundo), e, se não estivermos atentos, levarão ao fim do Estado de Direito.

Que os que se dizem democratas e progressistas levantem-se, e não aceitem a implantação desse verdadeiro estado policial e de vigilância.

*Gustavo Roberto Costa é Promotor de Justiça em São Paulo. Membro fundador do Coletivo por um Ministério Público Transformador – Transforma MP e da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD.

Sobre o exílio de nós mesmos

Por Rômulo Moreira*, Coletivo Transforma MP

Disse Brodsky que “um homem libertado não é um homem livre, e a libertação é apenas o meio de alcançar a liberdade, mas não seu sinônimo”

No outono de 1987, o poeta e dissidente russo Joseph Brodsky, escreveu, em um espaço curtíssimo de tempo entre um e outro, dois discursos que foram reunidos em um pequeno livro, cujo título – “Sobre o Exílio” –, diz muito de nós mesmos, seja porque trata do exílio (especialmente a primeira conferência: “A condição chamada exílio”), seja porque foram escritos no exílio (ambos).[1] O primeiro ensaio foi feito para ser lido numa palestra em Viena, na Wheatland Foundation, e o segundo foi o discurso que Brodsky pronunciou em Estocolmo, na Academia Sueca, quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, naquele mesmo ano.

A condição chamada exílio”, o primeiro texto do livro, é uma bela reflexão acerca da condição do escritor que se encontra longe de sua terra e, nada obstante se tratar de um texto aparentemente escrito desde aquele ponto de vista, é possível, no decorrer da leitura, vermo-nos ali sendo retratados, de uma maneira ou de outra, ainda que se trate de uma experiência muito pessoal pela qual passava o escritor. Na verdade, é preciso que se veja o “exílio” ali retratado como (também) uma categoria metafísica, conforme, aliás, consta da apresentação da obra.

Brodsky, logo no início, observa que no século XX “o lugar-comum foi o desenraizamento e a inadequação”, comparando o escritor exilado com o refugiado político, ou mesmo com qualquer outro trabalhador migrante, identificando neles um traço comum: o fato de estarem sempre “fugindo do pior para o melhor, pois só é possível se exilar de uma tirania numa democracia.”

A atualidade desta afirmação vê-se com a tragédia que representa a crise de refugiados na Europa Ocidental, um drama humanitário vivido por centenas de milhares de seres humanos, oriundos principalmente da África e do Oriente Médio, que buscam desesperadamente (e muitos, em vão) chegar em um lugar seguro.

Ora, diz ele, se por um lado isso é bom (sair de uma tirania para uma democracia, passando a gozar de uma relativa segurança física), por outro lado, e sob outro aspecto, este novo ambiente acaba por torná-lo “socialmente insignificante”, o que representa, no caso específico do escritor, um sofrimento absurdo, pois, como ele próprio admite (desde o seu lugar de fala), “a busca de significância, muitas vezes, constitui o resto da carreira de um escritor, exilado ou não, pois um escritor satisfeito com a insignificância, a indiferença e o anonimato é coisa tão rara de se ver quanto um papagaio no polo Norte.”

E, ao cabo, quem estaria mesmo satisfeito com a sua própria insignificância, a indiferença dos outros, ou mesmo o anonimato? Afinal, “é claro que um escritor sempre pensa em si em termos póstumos.”

Por isso, em geral, a realidade do escritor exilado “consiste na luta e conspiração constante para recuperar sua significância, seu papel instigador, sua autoridade”, levando sempre em consideração, naturalmente, “o povo de sua terra de origem.”

Brodsky, já àquela época, notava que havia “escritores demais por leitor, e que o público alinhava-se, estatisticamente, pela normalidade e pela mediocridade: hoje, alguém entra em uma livraria como em uma loja de discos, lotada de gravações de grupos e solistas que não daria para ouvir nem durante uma vida inteira.”

Se esta observação era absolutamente pertinente já no final do século XX, hoje, passados vinte anos do século XXI, a realidade de outrora, bem constatada por Brodsky, ainda mais se tornou visível, e evidente está, certamente alimentada pela burrice e pela mediocridade que povoa o ambiente virtual e acadêmico. [2]

Brodsky também notou a extraordinária “capacidade da espécie humana de reverter e de retroceder, principalmente em sonhos e pensamentos – visto que neles geralmente estamos a salvo também –, qualquer que seja a realidade que estejamos enfrentando.” Afinal, o passado, “sendo agradável ou sombrio, sempre é um território seguro, quando menos porque já é conhecido.”

E esta capacidade – que é só nossa – foi desenvolvida, menos para “acalentarmos ou recuperarmos o passado”, e mais “para adiarmos a chegada do presente”, ou seja, no fundo no fundo, o que queremos mesmo é “retardar a passagem do tempo”, como Fausto, de Goethe, que “se prende ao seu belo instante (ou não tão belo), não para o contemplar, mas para postergar o subsequente.”

(Falando do tempo – e do passar do tempo… -, lembrei-me de Françoise que, ao responder à Srª. Octave, a tia de Marcel (o narrador), disse-lhe: “Meu tempo não é assim tão caro; quem fez o tempo não o vendeu para a gente.”).[3]

O escritor, exilado ou não, na verdade, “precisa contar ao seu leitor (que pensa conhecer tudo), algo que lhe seja qualitativamente novo sobre ele e sobre o mundo dele.” Assim, “em certo sentido, todos nós trabalhamos para um dicionário, afinal a natureza é um dicionário, um compêndio de sentidos para este ou aquele homem, para esta ou aquela experiência.”

E, na medida de suas possibilidades, “tendo oportunidade, temos que deixar de ser apenas os efeitos resultantes na grande cadeia causal das coisas e tentar agir nas causas”, sejamos ou não escritores, pois, “para cada um de nós se oferece uma única vida, e sabemos muito bem como isso tudo termina.”

Em outras palavras: a contemporaneidade exige de todos (e de todas) uma atuação afirmativa no sentido de restabelecer a ordem das coisas, a democracia substancial, o vigor das liberdades públicas, a vergonha dos governantes, o respeito às pessoas, o bem-estar social e a dignidade da nação.

Lembremos, então, falando de contemporaneidade, da poesia de Osip Mandel’stam (“O século” ou “Época”), citada por Agambem:

Meu século, minha fera, quem poderá olhar-te dentro dos olhos,

e soldar com o seu sangue as vértebras de dois séculos?[4]

Disse Brodsky que “um homem libertado não é um homem livre, e a libertação é apenas o meio de alcançar a liberdade, mas não seu sinônimo.” Assim, “se quisermos desempenhar um papel maior, o papel de um homem livre, então deveríamos ser capazes de aceitar – ou pelo menos imitar – a maneira como um homem livre fracassa, e um homem livre, quando fracassa, não culpa ninguém.”

Ao final deste primeiro discurso, Brodsky considera que se havia “algo de bom no exílio era o fato de ensinar a humildade, lição suprema dessa virtude.”

Em tempos de quarentena, de isolamento social e de lockdown, e considerando o exílio como uma categoria metafísica (como referido acima), eis uma boa lição para aprendermos.

No outro texto reunido, Brodsky, no início do seu pronunciamento na Academia Sueca, afirmou que “não é a conduta no pódio que dá a medida da nossa dignidade profissional.”

Eis um grande exemplo em tempos de vaidades imensas e de pavonadas ridículas!

Aqui, ao receber o Prêmio Nobel, alertou para a importância da literatura em nossa vida, pois “um homem com bom gosto, especialmente literário, é menos suscetível aos encantos e amarras de qualquer versão da demagogia política.”

Brodsky também teorizou acerca do sistema político – e o fez em várias outras vezes -, afirmando ser a “forma do passado que aspira a se impor sobre o presente (e, por vezes, sobre o futuro também); e o homem cuja profissão é a linguagem é o último que pode se dar ao luxo de se esquecer disso.”

Ademais, “quanto mais substancial é a experiência estética de um indivíduo, mais sólido é seu gosto, mais afiado é seu foco moral, portanto, mais livre ele é, mesmo que não seja necessariamente mais feliz.”

Sobre a função da leitura em geral, e do livro em especial, ele afirmou ter “a impressão de que um livro é mais confiável que um amigo ou um amantepois um romance, ou um poema, não é um monólogo, é uma conversa deveras privada entre o escritor e o leitor, da qual se exclui todo o resto do mundo.” Eis porque “o romance ou o poema é o produto de uma solidão mútua – do autor ou do leitor, constituindo-se num meio de transporte pelo espaço da experiência, na velocidade do passar de uma página.

Sobre o poeta, e sobre o fazer um poema, disse ele “que escrever versos é um extraordinário acelerador da consciência, do pensamento, da compreensão do universo, e aquele que experimenta essa aceleração uma vez, não consegue mais abandonar a chance de repetir essa experiência, caindo numa dependência, como outros o fazem com drogas e álcool.

Então, ele define o poeta como sendo justamente “aquele que se encontra nesse tipo de dependência da linguagem, que é mais duradoura que o homem, e mais do que ele é capaz de mutação.”

Para Brodsky “a pior da violações é a de não ler livros e por esse crime paga-se por toda a vida, e quando o violador é a nação, ela paga com sua história.”

Ao que parece, vive-se no Brasil exatamente este risco, povoado que estamos por uma pletora de analfabetos e estúpidos, desde os de cima.[5]

Rômulo de Andrade Moreira* – Procurador de Justiça no Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da Universidade Salvador – UNIFACS

[1] BRODSKY, Joseph. Sobre o exílio. Belo Horizonte: Editora Âyné, 2016. Brodsky, expulso da União Soviética, chegou aos Estados Unidos para dar aulas na Universidade de Michigan em 1972, e nunca mais voltou para a sua terra, morrendo em Nova York, em 1996, já cidadão americano.

[2] É conhecida a declaração feita pelo escritor e filósofo italiano Umberto Eco “que as redes sociais deram o direito à palavra a uma legião de imbecis que antes falavam apenas em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” Esta afirmação foi dada em um evento no qual ele recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, em 10 de junho de 2015. Disse Eco, então: “Normalmente, eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. A TV já havia colocado o idiota da aldeia em um patamar no qual ele se sentia superior. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.” (Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2015/06/11/redes-sociais-deram-voz-a-legiao-de-imbecis-diz-umberto-eco.jhtm>. Acesso em: 09 de maio de 2020).

[3] PROUST, Marcel. Em busca do tempo perdido, Volume I. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2016, p. 63.

[4] AGAMBEM, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó: Editora Argos, 2009, p. 60.

[5] Uma vez, Pablo Neruda, de longe, escreveu um poema pensando em nós: “Quantas coisas quisera eu dizer hoje, brasileiros, quantas histórias queria eu contar-lhes, quantas lutas, desenganos, vitórias que carrego por anos no meu coração para lhes dizer, pensamentos e saudações. Saudações das neves andinas, saudações do Oceano Pacífico, palavras que os trabalhadores, os mineiros, os pedreiros, todos os habitantes de minha distante terra natal me disseram quando passaram. Vou lhes dizer que não guardas ódio. Que só quer que sua pátria viva. E que a liberdade cresça nas profundezas do Brasil, como uma árvore eterna. Eu gostaria de lhe dizer, Brasil, muitas coisas calmas, realizadas nestes anos entre a pele e a alma, sangue, dores, triunfos, o que os poetas e o povo devem dizer um ao outro: será novamente, um dia.” (NERUDA, Pablo. Canto General. Chile: Pehuén Editores, 2014, p. 174, numa tradução livre).