
Leio Freud e também leio mulheres. Enquanto elas buscam nomes e sentidos em mim, eu encontro o que perdi, de mim, nelas.
por Cristiane Corrêa de Souza Hillal no GGN
Não procure respostas que não podem ser dadas porque não seria capaz de vivê-las. E a questão é viver tudo.
Viva as perguntas agora.
Rainer Maria Rilke em Cartas a um Jovem Poeta
“Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.”
Clarice Lispector em Perto do Coração Selvagem
Sueli tinha problemas no quadril de tão obesa. Toda vez que entrava em minha sala, eu sentia medo que ela não coubesse na cadeira que eu tinha para oferecer. E era justamente de direito constitucional ao espaço que Sueli vinha falar. Espaço na fila de cirurgia, no transporte especial do SUS, no Conselho Municipal de Saúde. Sueli mal andava, mas atravessava a cidade para colocar seu corpo opulento de dor na minha cadeira frágil. A sua história era interminável, suas perdas eram mais longas que as minhas horas de trabalho, mas o que me fisgava, mesmo, era o laço. Vermelho. Um gigantesco laço de fita vermelho no cabelo combinando com o batom barato que escorria pelos cantos de sua boca carnuda, enquanto ela desfiava seu rosário de lutos. Um filme do Almodóvar passava pela minha cabeça diante daquela figura tão tragicamente mulher, enquanto eu lutava para ser apenas a burocrata que ela buscava, e que daria alguma ilusão de organização àquele caos que as violências sempre deixam nos corpos, sobretudo naqueles corpos de mulheres gordas, negras, periféricas, de batom e laço vermelho nos cabelos. Sueli não estava no mundo para sumir. A cadeira aguentava.
Dona Leia chegou perfumada, magrinha e amparada pela cuidadora. Quase 80 anos. Apresentou a demanda: vim saber se estou louca. Me estendeu um contrato de arrendamento de um posto de gasolina e disse que tinham falsificado sua assinatura. Sem que eu pedisse, puxou um papel e uma caneta. Letrinha por letrinha. O corpo todo naquele nome, o nome todo naquele corpo. O corpo, a letra e o nome, tudo era miúdo. Dona Leia se arrastava inteira com seus ossinhos naquele papel. Poucas coisas me fascinavam nos inquéritos policiais, mas particularmente amava os laudos grafotécnicos. Essa coisa tão singular que é a letra e aqueles relatórios tão sabidos: Fulano cortou o T para cima, para baixo, terminou a perna do Z com inclinação para cá, ou para lá… – Pronto, disse. Olhei. Eram assinaturas muito parecidas, mas não havia dúvida: – A senhora foi vítima de crime de estelionato, anunciei. A senhora magrinha e perfumada me escreveu um nome, eu lhe devolvi outros. Em nenhum deles estava a palavra louca. Os ossinhos de Dona Leia se voltaram todos para a cuidadora: – Ouviu?!
Quando Marina chegou, parecia muito mais jovem do que realmente era, talvez pela agitação. Essa pressa de viver de gente entalada de sentimento por dentro. Não falava, despejava, jorrava palavra, como se a qualquer momento eu fosse cortar sua voz, sair correndo, deixar a cortina cair, apagar a luz, virar pó ou alguma coisa parecida. Em pouco mais de 10 minutos, resumiu 10 anos de vida. Fiquei com medo que ela morresse de palavra, ali, na minha frente, quando começou a descrever a vida com seu marido, pastor evangélico: – Ele colocava a faca na minha virilha, diz e paralisa. Me perco hipnotizada naqueles olhos imensos contornados por cílios postiços, acostumados a garoas e enchentes. Quase fico ali para sempre, no espetáculo das águas chegando, mas julgo leal explicar que não sou Promotora de Justiça Criminal… que vou encaminhá-la … e ela interrompe: – Meu ex-marido já está sendo processado, eu quero mesmo é que a senhora tome providências contra minha Igreja. Marina respirava. Eu não.
Depois de alguns anos, encontrei Sueli em um evento estadual para conselhos municipais. Ela usava uma cadeira de rodas, e já não brigava com as cadeiras: tinha inventado seu próprio assento no mundo. Estava indignada, com o microfone na mão, defendendo as letrinhas do SUS e dando bronca na Prefeitada toda. O companheiro, cego, a acompanhava da plateia. O vermelho transbordava do seu corpo todo.
Depois que o processo penal terminou e que eu mudei de Comarca, Dona Leia me achou, e insistiu para que eu tomasse um chá em sua casa. Continuava com aqueles ossinhos que pareciam que iam quebrar e eu fui. Ela morava em uma fazenda gigantesca, com um pôr do sol maravilhoso. Nas paredes do escritório fotos dela com Presidentes e personalidades políticas importantes da história do Brasil. Eu não consegui disfarçar meu espanto e ela, entre marota e comovida, me disse que eu tinha sido a primeira pessoa, em toda sua vida, que lhe fazia algo sem saber quem era ela. A senhora magrinha e perfumada, que nada tinha de louca, não usava, na assinatura, o sobrenome da família de banqueiros mais conhecida do país e ali, sob o poente de uma vida, ela me contou das infindáveis perdas que podem esconder um nome, e um sobrenome, para muito além do que um laudo grafotécnico sabido poderia descobrir.
Marina era tão apressada, quanto inteligente. Depois de 10 anos se sentindo culpada por não perdoar toda sorte de violência doméstica, ela entendeu que não bastava escapar de um homem. Era preciso escapar de um Deus que preferia as mulheres mortas a separadas. Trouxe todo o plano pronto: artigos em inglês sobre a origem da coisa toda, nomes dos Pastores que lhe fecharam as portas, datas. Trouxe Efésios 5:22-25, a Constituição Federal e a vontade de perder uma Igreja sem que essa Igreja lhe perdesse.
As mulheres que buscam o Ministério Público trazendo suas histórias perderam maridos, pais ou filhos. Perderam espaço. Perderam tempo. Às vezes perderam sua casa, às vezes uma igreja inteira. Em todas às vezes perderam um pouco delas mesmas e levaram suas perdas na esperança de que a lei lhes desse nomes e sentidos.
Em 1917, no cerne dos abalos da primeira guerra mundial, Freud escreveu sobre luto e melancolia. Naquela ocasião, ele falou sobre a perda de si mesmo quando se perde um objeto sobre o qual se depositava libido, ou amor, ou esperança, ou desejo, ou o nome que se quiser dar. “A sombra do objeto recai sobre o eu”, é sua célebre frase, ao revelar que perder o outro é perder, também, quem éramos junto àquele outro. E não há, mesmo, como viver sem perder.
Leio Freud e também leio mulheres. Enquanto elas buscam nomes e sentidos em mim, eu encontro o que perdi, de mim, nelas.
“O poeta admirava a beleza do cenário que nos rodeava, porém não se alegrava com ela. Era incomodado pelo pensamento de que toda aquela beleza estava condenada à extinção”.
Por que, afinal, amar, se vamos perder? Perguntava o poeta.
E Freud lhe responde:
“Se existir uma flor que floresça apenas uma noite, ela não nos parecerá menos formosa por isso”.
Sueli coloca batom vermelho. Leia se perfuma. E Marina contorna sua enchente em cílios gigantes.
Este artigo não representa necessariamente a opinião do Coletivo Transforma MP.
Cristiane Corrêa de Souza Hillal – Promotora de Justiça do MPSP e integrante do Coletivo Transforma MP
Referências:
- Os nomes são fictícios.
- FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: FREUD, Sigmund. Obras completas, v. 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 170-193.
- FREUD, Sigmund. A transitoriedade. In: FREUD, Sigmund. Obras completas, v. 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 327-334.