Por Maria Betânia Silva
A posse de Lula para exercer o seu terceiro mandato como Presidente do Brasil se impõe como o fato histórico mais relevante do mundo, dessas duas primeiras décadas do século XXI.
O que se viu e se vivenciou em Brasília ontem, dia 1° de Janeiro de 2023, não tem precedentes em nenhum outro país. Não foi apenas a festa da posse, explosão de alegria. É o que ela representa diante do cenário mundial de avanço de um espectro político de extrema- direita, destrutiva da convivência humana em todos os seus aspectos.
Em linguagem popular, pode- se afirmar que a volta de Lula ao poder é a mostra de alguém que ‘dá nó em pingo d’água’ e o faz no melhor sentido, que fique bem claro! É um nó como se fosse um laço de presente, para trazer o futuro. Ele, no passado, já nos tinha ofertado o melhor futuro e é, ainda, doloroso pensar que retrocedemos ao nosso passado mais sombrio com os governos que se seguiram após o golpe de 2016.
Sob a perspectiva dos historiadores, de filósofos e sociólogos, a vitória eleitoral de Lula, em 30 de outubro de 2022, afastando do poder um chefe de governo fascista constitui um fato inédito.
Até então, de acordo com as teorias políticas que emergiram das experiências históricas concretas ocorridas na Europa, se acreditava que somente através da guerra, como se deu durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e não pela via eleitoral, seria possível vencer o fascismo.
O Brasil flertou com o fascismo e estava em vias de selar um pacto com ele, o qual foi interrompido graças à existência de Lula: um ser humano transbordante de virtudes e um líder político inspirador, inteligente, sensível, resolutivo e hábil.
Simbolicamente, a caminhada de Lula até aqui, criando o arco de alianças, funcionou como uma estratégia de guerra. Nada foi fácil e nem será. Ele, porém, conseguiu poupar o Brasil do mergulho num embate mortal de proporções inimagináveis para um país com 215 milhões de habitantes, de grande extensão territorial e abrigo da maior floresta tropical do mundo da qual depende a sobrevivência da humanidade.
Ele é um guerreiro que nutre bons afetos, sabe fazer política usando da palavra, algo que é próprio do ser humano evoluído na sua e existência, e é de importância fundamental para o Brasil e para o mundo; para o povo brasileiro e para a humanidade.
Com o perfil humanizado e humanizante que tem, Lula dispensa as armas automáticas de tiros em série. Ele sabe bem que as armas e os seus projéteis não são instrumentos da política de vida civil, são projéteis pérfuro contundentes, destrutivos dos corpos que aniquilam projetos de vida.
Lula não enxerga inimigos, mas adversários com pontos de vista diferentes do seu e, nesse sentido, age e provou que “as flores vencem o canhão”. Ele quebrou parte dos espinhos fascistas e demonstra disposição para continuar na luta até que eles murchem.
Logicamente nem todos desapareceram, muitos se retraíram e, ainda, podem voltar a eclodir. Portanto, cuidemos do nosso jardim. Estejamos atentos ao florescimento das nossas políticas públicas, da nossa primavera cujas flores Lula polenizou no país ao longo dos seus dois mandatos anteriores, como nunca se tinha feito na História do Brasil, como nunca se tinha visto. Foram muitas políticas de inclusão das parcelas vulnerabilizadas do povo e o povo brasileiro demonstrou que não esqueceu.
Os governos de Lula e Dilma foram governos honrados e empenhados em seguir os princípios fundadores do Partido dos Trabalhadores, fundado há 40 anos pelo próprio Lula, quando era líder sindical. O povo brasileiro, por seu turno, ao votar em Lula em 2022 também deixou claro para o mundo que tem uma honra inabalável e soberana, atento às necessidades reais de vida da classe trabalhadora e preocupado em como compatibilizar isso com outras questões de grande envergadura para a estabilidade social e econômica do país, dentre elas, a preservação ambiental e proteção dos povos originários. A democracia que, desde 1988, no Brasil, era tratada como projeto, floresceu, brotando do chão, como um sonho impossível, tornado possível.
O cenário político de compromisso com a democracia, hoje, porém é bem distinto daquele de 1988.
Há, como já salientado, um arco de alianças e isso torna o cotidiano da prática democrática muito mais complexo, porém, não se pode esquecer que esse arco somente foi possível porque: a) Lula respeitoso das instituições do país, nelas acreditou e recuperou os seus direitos políticos, que lhe foram absurdamente subtraídos pela leviana operação Lava Jato, e b) o Partido dos Trabalhadores, criminalizado pela lógica rasteira de alguns integrantes das mesmas instituições nas quais Lula acreditou, resistiu à tempestade revelando- se como o mais consistente partido político criado no Brasil e, por conseguinte, um guardião da democracia representativa, a despeito dos problemas internos que vez ou outra lhe atravessam.
Esses dois fatores aqui ressaltados – embora não sejam os únicos a serem considerados – são relevantes para extrair a lição de que não se pode brincar com a institucionalidade no país.
As instituições, e os partidos políticos são uma instituição, junto com o povo funcionam como pólos de atração de vida democrática, através de um processo contínuo de interação.
Não é possível falar em democracia sem povo atuante e envolvido com as práticas da vida política e sem instituições capazes de acolher as demandas de organização e de proteção de direitos desse povo. Trata- se de uma equação com muitas variáveis, de valores diversos e que precisam manter equilíbrio em seus termos. Quebrar essa equação, oprimindo o povo, dizimando- o e desvirtuando as instituições do papel que lhes cabe cumprir implica destruir a atividade política do país e, por conseguinte, as possibilidades de convivência social.
Lula com resiliência, paciência e sabedoria, se coloca à frente do tempo para restabelecer a normalidade no Brasil, reconstruindo-o a partir dos escombros deixados pelo seu antecessor: um homem Inominável pelo tanto de defeitos que carrega e pelo tanto de maldades que foi e é capaz de fazer.
Está mais do que claro pra todo mundo que Lula é orgulho e honra do povo brasileiro e que, portanto, o sucesso do governo que ele ora inicia depende mais de nós do que dele. Se quisermos manter o orgulho e a nossa honra como povo devemos nos esforcar para ter Lula como a nossa grande inspiração e isso significa sermos: pacientes, perseverantes, combativos e resilientes.
Estejamos atentos a fazer do nosso discurso e a nossa prática, afinal a fala é ação, para o bem e para o mal. Isso já ficou demonstrado. Mas ainda cabe enfatizar que o governo derrotado nas urnas foi aquele que maior mal fez ao país tornando a fala odiosa e violenta a sua ação e realizando concretamente várias ações que cumpriram a promessa destrutiva anunciada.
Agora, com Lula, estamos em um patamar de decência existencial.
No discurso que ele proferiu na cerimônia de posse, quando subiu no parlatório, após receber a faixa presidencial das mãos de representantes da diversidade do povo brasileiro, num gesto magnânime e cheio de significados, disse: “a esperança venceu o medo e o amor derrotou o ódio”.
Ninguém em sã consciência rejeita essa mensagem, mas se o fizer: ou não tem qualquer consciência da vida ou é insano mesmo.
Maria Betânia Silva – Procuradora de Justiça Aposentada e Membra do Coletivo Transforma.