Por Leomar Daroncho no Correio Braziliense
"Toda a beleza do ser humano consiste em se tornar algo melhor do que se foi."
Dentre os registros da campanha eleitoral de 2026, duas cenas tendem a se perpetuar como marcas do enorme esforço necessário para a evolução civilizatória.
Embora caricatas, as encenações do estalo do chicotinho e da condução de um homem negro, com um tridente, acorrentado e conduzido por um homem branco com um agasalho verde e amarelo, remetem ao saudosismo do passado escravocrata do último país das Américas a abolir a escravidão. Os eventos não podem ser ignorados.
Calhou de, entre os dois turnos das eleições de 2026, encontrar-me lendo a obra tida como a mais célebre de Stefan Zweig. Tenho dificuldades em cravar qual o melhor livro do escritor austríaco, mas a obra publicada postumamente, em 1942, é digna do reconhecimento.
Em Autobiografia: o mundo de ontem, Zweig percorre as memórias de um europeu, de origem judia, nascido em 1881, que viveu o auge cultural de Viena, no final do século 20, e a devastação da Europa pelas duas guerras mundiais.
Num dos capítulos, há uma descrição do cenário de surgimento e ascensão de Adolf Hitler: "surgiu inicialmente de forma vaga e sem peso em meio a uma série de agitadores e desordeiros na Alemanha pós-Primeira Guerra Mundial".
O surgimento foi subestimado por intelectuais, imprensa e sociedade da época: "que não conseguiram prever a destruição e o caráter desumano que o regime nazista traria ao poder". Zweig especula que alguns setores consideravam desimportante ou mesmo fomentavam o movimento, secretamente, e "se assustaram depois com a brutalidade e a rapidez com que de repente adquiriu força". Um dia acordaram e "Munique estava nas mãos de Hitler, todos os cargos ocupados, os jornais obrigados com revólveres a anunciar triunfantes o êxito da revolução".
Embora reconheça o próprio comedimento e a aversão à participação em atos públicos, Zweig chegou a causar um leve incômodo a Hitler quando cartazes de sua novela Segredo ardente foram alvo da agitação nazista logo após o Incêndio do Reichstag.
O autor mostra-se saudoso do período de maior sucesso de sua produção literária, quando viveu em Salzburgo logo após a Primeira Guerra Mundial, entre 1919 e 1934. Na pequena cidade de então, superando a escassez e destruição material, reencontrara a paz e participava de um círculo de artistas e intelectuais, num ambiente propício ao desenvolvimento cultural, antes da ascensão nazista destruir seu mundo novamente.
"E sempre quando olho para trás e me lembro da cidadezinha, tão cinzenta e deprimida logo depois da guerra, quando me lembro da nossa própria casa em que, morrendo de frio, lutávamos contra a chuva que caía pelo telhado, percebo o que esses benditos anos da paz fizeram pela minha vida. Permitiram que se pudesse voltar a acreditar no mundo, na humanidade".
Em razão do nazismo e da pressão antissemita, Zweig teve seus livros queimados, e a cidadania austríaca revogada. Apátrida, viveu exilado, na Inglaterra, entre 1934 e 1940. Em 1941, estabeleceu-se no Brasil, em Petrópolis, onde teve um fim trágico, juntamente com sua esposa, em 1942.
A palavra "saudade", considerada uma das mais belas da língua portuguesa, normalmente é associada a lembranças boas, remetendo à melancolia pela ausência de alguém, de um lugar ou de uma época. Dados do Ecad registra mais de 15 mil músicas em que a expressão consta no título: Chega de saudade; Saudade da minha terra; Ai que saudade d'ocê; e por aí vai.
Em meio à festa cívica do processo eleitoral, o saudosismo tóxico remete a práticas escravocratas. Representa o despudor que está a desafiar os anseios de humanidade e de convivência numa sociedade que promova o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, erradicando a pobreza e a marginalização e reduzindo as desigualdades.
São vetores do objetivo fundamental da República Federativa do Brasil, com o propósito de constituir-se numa sociedade livre, justa e solidária.
Também são fundamentos da nossa República os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo político. Assim, também é responsabilidade dos eleitos, para a condução dos interesses comuns, a construção de um ambiente que facilite o diálogo e o entendimento com o amplo espectro de visões e anseios da sociedade e seus representantes do campo democrático. Sem ingenuidade, o humanismo de Zweig convoca ao saudosismo vigilante.