Aos que vão nascer
É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.
Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?
(...)
Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.
(...)
Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.
Bertolt Brecht, “An die Nachgeborenen” / “Aos que vão nascer”. Tradução de Paulo César de Souza.
Prezados Cínicos,
Talvez estranhem o “prezados” logo de cara e me interpretem também como uma cínica, por usá-lo no início desta missiva. De fato, não desconheço a contradição da minha primeira frase e a assumo, mas não sem constrangimento. Aí reside, talvez, nossa primeira diferença.
Constrangida por nascença. Um certo pudor por existir, por ocupar espaços e tempos dos outros. Alguma cerimônia, herdada talvez de meu pai mineiro, pobre e órfão, ou vinda da gestação tardia e de risco de minha mãe, quem saberá, me faz ter um receio exagerado de ser, de alguma forma, incômoda. Pior, uma certa necessidade de soar útil demais, de trabalhar neuroticamente muito além do que precisava, me levou ao divã, mas também ao lugar onde estou hoje e de onde escrevo esta carta: esse lugarzinho de defensora dos direitos humanos, tão odiado por vocês, caros Cínicos.
Eis a razão da carta.
Quero falar de nosso ódio. Sim, o nosso, porque também odeio, e não é com facilidade que digo isso, o que, reconheço, em nada ameniza a feiura do meu ódio por vocês, prezados Cínicos.
Odeio em sussurros, para as crianças, que agora dormem, não escutarem. Odeio sem contar aos vizinhos e sem colocar na rede social. Odiar me faz perder o sono. Me dá dores no corpo. Me faz chorar e, assim mesmo, odeio.
Olho extasiada para esse ódio estranho e familiar que emerge de dentro de mim e tento decifrá-lo, mas não o reconheço no que me move ou comove.
Meu ódio não está no meu quintal, nas platinelas do meu pandeiro, no pelo macio da minha gata ou na risada do meu filho. Não o encontro no azul que minha mãe inundava em mim quando me olhava, tampouco no violão do meu bem, esse Bem que um dia cruzou uma esquina de carnaval, quando tudo parecia vivido e desvivido.
Procuro, mas não o encontro na filha que vai à feira para comprar flores, nem nos desvalidos que, todos os dias, me atravessam tão profundamente com suas histórias e dores que fico capaz de erguer teatros, ruas e escolas, mover prefeitos, pastores, professores e ex-amores, os prédios, as pontes e os abismos, tudo e todos no mundo inteirinho, só para que ninguém mais sofra ou, pelo menos, não sofra sozinho.
E mesmo assim, odeio.
Volto para o divã, mais corajosa agora, para reconhecer e cavoucar o ódio que sinto dos senhores, prezadíssimos Cínicos. Destemida, fria e empoderada, vou até a menininha que queria salvar o pai de seus desenredos e a mãe de seus lutos. Cavuco tudo, toda a solidão miúda da menininha, até as entranhas, mas não o encontro.
Mas sim, odeio. Estou bem certa de que odeio.
Não duvidem. Não riam do meu ódio, porque posso provar que odeio.
Odeio como zombam de mulheres, gays e negros. Odeio porque vocês nos matam com armas e palavras. Odeio como berram e mentem descaradamente enquanto eu peço licença para existir. Odeio como gesticulam, ensaiam trejeitos e frases prontas para machucar, calar e humilhar. Odeio sua política de bullying e seu Deus vingativo, preconceituoso e tirano. Odeio ver minhas amigas fazendo cursos de autodefesa para sobreviverem a vocês nas ruas escuras. Odeio, com todo o nojo que sou capaz de sentir, como profanam a democracia e exaltam a tortura.
Odeio, Senhores Cínicos, esse mundo paralelo para onde levaram tantos dos que amo, afastando-os de mim, a ponto de eu não mais saber se eles são, também, agora, os cínicos para quem escrevo esta carta.
Odeio, Senhores Cínicos, por terem me tirado deles.
E mesmo assim, odeio.
Mas me contem, Senhores Cínicos, sentem-se aqui, tragam seus ódios para a roda. Fizemos uma roda nesta escola pública. O professor negro disse que quer contar que se afundou em depressão ao se sentir sozinho e sem retaguarda, depois que o pai de um aluno o ameaçou de morte por ter dado uma aula de história sobre a ditadura.
Venham cá, Senhores, escutem a menina de 14 anos tentando segurar as lágrimas enquanto conta que cresceu ouvindo que iam cortar seu cabelo para lavar a louça.
Cheguem pertinho, por favor, para ouvir a voz baixinha da mãe do menino gay que se matou.
Escutem essa outra mãe falando que sua filha com deficiência é rosto, não resto.
Por favor, tragam seu ódio para perto, sem robôs no meio de nós. Robôs não sentam em roda. Robôs não conhecem a professora negra cuja mãe lhe dava água com açúcar, na infância, para enganar a fome. Aparentemente, ela não precisou de coach, Senhores, mas de política pública para ser, hoje, doutoranda em uma das melhores universidades públicas do país.
Venham todos, por favor, vamos ouvir músicas juntos.
Agora é a vez de vocês.
Contem suas histórias. Quem embalou vocês? Do que vocês brincaram nos parquinhos? Quem vocês amaram? Por quem já choraram escondidos? O que já desejaram ter e não tiveram? Quem ama os Senhores, Caros Cínicos?
Quero escutá-los, preciso escutá-los, posso aguentar porque já odeio vocês.
Trago meu ódio, declarado e reconhecido em cartório. Posto. Eu odeio. O ódio está nu na roda.
Venham, venham, Senhores Cínicos, vamos improvisar nossas falas. Respeitar as pausas e os silêncios. Respirar. Deixemos os ensaios para as coreografias de dança.
Conseguem escutar meu ódio?
Meu gigantesco ódio grita que odeia muito, odeia mesmo, de verdade. Odeia odiar.
E o de vocês?
Espera...
Eu não trouxe armas.
Esqueci de odiar com elas... espera...
Espera...
A criança procurava o lápis de cor quando achou a carta. Os adultos sempre contavam sobre a tal carta da espera.
Naquele dia, quando os ódios foram se sentar em roda, apareceu tanta gente para falar e escutar que a roda já não coube em si mesma. Foi crescendo, crescendo, até virar uma espiral gigantesca em direção aos céus.
A espiral subiu, subiu, subiu, levantando ventos que abriram frestas nos mundos paralelos.
Diz a lenda que, naquele dia, com a ventania, a letra R escapou das aRmas que os Senhores Cínicos levaram para a roda.
Os professores, os estudantes, as merendeiras e as gentes todinhas foram recolhendo os erres voadores e espalhando-os pelos cantos do mundo.
Era um tal de gente aRRebatada, aRRepiada, ReeRguida, Resistente, Reexistente e Risonha como jamais se viu. O mundo rangeu de vida.
E os cínicos, coitados, sem robôs para ajudá-los, tiveram que se haver com o que sobrou da palavra arma sem a letra R mesmo.
Este texto não representa necessariamente a opinião do Coletivo Transforma MP.