Esta semana chamou especial atenção – seja pelo (não) reconhecimento de um erro grosseiro, seja pelo arroubo e pela bravata autoritária, seja pela ignorância absurda demonstrada – quatro declarações de generais do Exército, três deles integrantes do governo brasileiro, e um terceiro americano.
O general Mark Milley, principal autoridade militar dos Estados Unidos, pediu desculpas publicamente ao povo americano, especialmente às pessoas que protestavam contra o racismo e a violência policial, e que foram reprimidas violentamente durante uma caminhada (mais uma grande presepada, na verdade) do presidente Trump para encenar uma foto em uma igreja próxima à Casa Branca. O general Milley, ao acompanhar o presidente, seguramente caíra em uma armadilha preparada pelo farsante.
Após a repercussão negativa do “passeio” do presidente, ao lado do general, o chefe do Estado Maior Conjunto, constrangido, mas também constrangendo publicamente o negacionista americano, afirmou: “Eu não deveria estar lá. Minha presença naquele momento e naquele ambiente criou uma percepção de envolvimento dos militares na política interna. Como oficial da ativa, foi um erro com o qual aprendi, e espero sinceramente que todos aprendam com ele.”[1]
O general Milley lembrou-me, aqui no Brasil, o general Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, que outro dia acompanhou também pessoalmente o presidente da República, sobrevoando a bordo de um helicóptero oficial a Esplanada dos Ministérios, prestigiando mais uma manifestação a favor do governo e contra o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, ou seja, contra duas instituições republicanas e democráticas.[2] Aqui, nada obstante o despropósito do passeio aéreo, não houve pedido de desculpas.
Então, ao lembrar-me do general brasileiro, eis que me vejo diante de uma entrevista de outro general integrante do governo brasileiro, Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo, onde, após descartar a possibilidade de uma intervenção militar, ele fez questão de deixar um alerta para a oposição:
“NÃO ESTICA A CORDA!”[3]
Ao menos para os meus ouvidos, soou-me como uma ameaça, ainda que velada. Caberia uma (re) pergunta ao general, como se fora uma provocação: “e se esticarem a corda, general, vocês assumem o governo, de fato?”
Talvez, quem sabe, aceitando a provocação do entrevistador impertinente e ousado, ele respondesse: “de fato e de direito, como fizemos em 64!”
Bem, o certo é que não houve a (re) pergunta e, portanto, não existiu a segunda resposta. Tratou-se, portanto, de uma mera conjectura feita por mim.
Se não bastasse, também nesta semana fomos brindados com uma verdadeira aula de geografia dada pelo general Eduardo Pazuello – ministro interino da saúde -, segundo o qual, “para efeito da pandemia, podemos separar o Brasil em Norte e Nordeste, que é a região que está mais ligada ao inverno do Hemisfério Norte, são as datas do Hemisfério Norte que temos inverno, e ao Centro-Sul, Sudeste, Centro-Oeste, que é a região que está mais ligada ao inverno do Hemisfério-Sul.”
A afirmação, absolutamente confusa, estapafúrdia e exótica – para usarmos de eufemismos –, foi um verdadeiro atestado de ignorância, inadmissível para o (quase) titular de uma pasta da importância do Ministério da Saúde (ainda mais em tempos de uma pandemia), e ensejaria uma tremenda “justa causa” para ele ser imediatamente defenestrado da administração pública e voltar para os serviços da caserna.
O general, ora ministro, além de demonstrar um desconhecimento absurdo das noções mais elementares de geografia física, mostra a acefalia na qual se encontra a saúde pública no Brasil, nada obstante estarmos atravessando uma pandemia de consequências desastrosas para a economia brasileira (certamente), mas, sobretudo, para a vida dos brasileiros e brasileiras que estão morrendo aos milhares, com o olhar complacente de quem deveria estar à frente das providências mais enérgicas e efetivas para minorar o sofrimento de tanta gente, e impedir mais mortes.[4]
Inacreditavelmente, desde o início da pandemia, foram três ministros da Saúde já ocupantes da pasta. Esta situação de indefinição e de desleixo só encontra precedente no Brasil na época da ditadura militar (coincidentemente), quando o país atravessou a maior epidemia de meningite da sua história, e a omissão de dados sobre a doença (e a sua manipulação) por parte das autoridades sanitárias permitiu o crescimento exponencial da meningite. Naquela época, enquanto nos porões dos quarteis e das delegacias de Polícia do Brasil praticava-se toda a sorte de atrocidades – mortes, torturas, violências sexuais -, somente na cidade de São Paulo a enfermidade atingia todos os bairros da capital, chegando a registrar a média de 1,15 óbitos por dia.[5]
Por fim, lembrei-me então, não de um general, mas de um certo capitão do Exército que, ao ser informado que o Brasil havia ultrapassado o número de mortos da China por covid-19, perguntou:
“E DAÍ?”[6]
Então, restaram-me Ruy Guerra e Milton Nascimento: “para essa rede de intrigas, meus gritos afro-latinos implodem, rasgam, esganam, e, nos meus dedos dormidos, a lua das unhas ganem. Entre hinos e chicanas, entre dentes, entre dedos, no meio destas bananas, os meus ódios e os meus medos. E nessa dor que me pela, só meu ódio não é podre. Tenho séculos de espera nas contas da minha costela. Tenho nos olhos quimeras com brilho de trinta velas. E DAÍ?”[7]
Bem, de toda maneira, como escreveu Bertold Brecht, e ainda que tenhamos os nossos peculiares e curiosos generais, “creio no homem e por isso acredito na sua razão, afinal, sem esta convicção não teria mesmo força para me levantar de manhã da cama.”[8]
E, para concluir, lembro de um outro general brasileiro, que chegou a ser preso disciplinarmente ao romper com o governo Geisel, denunciando os malfeitos de então, e como se falasse do futuro também:
“O autoritarismo de Geisel, sua posição pessoal de isolamento, seu completo envolvimento pelo grupo palaciano, permitiu a criação de um monstro que hoje constitui séria ameaça ao futuro do país: a oligarquia dominante. O grupo conseguiu instalar-se no poder, ocupando todos os espaços, isto é, tendo nas posições-chave elementos de inteira confiança.”[9]
Parece hoje…
*Rômulo Moreira é Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia., Professor universitário, estudante de jornalismo e membro do Coletivo Transforma MP